Relatos míticos, lendários e religiosos contribuem para a formação de crenças populares a respeito de serpentes, o que provoca pavor e até encanto entre as pessoas. Se você já ouviu falar de cobras que correm atrás de pessoas ou de anacondas gigantescas que protegem as florestas e afundam barcos, então sabe do que estou falando. O problema é que muitas histórias podem agravar casos de acidentes com picadas e podem atrapalhar a preservação desses animais, já que muitas vezes as pessoas os matam ao encontrá-los. Aqui vamos abordar algumas Fake News do mundo das serpentes para que você não se engane com histórias fantasiosas.

Contamos para vocês, no nosso primeiro texto, o que fazer em caso de acidentes com picadas, mas em muitas regiões acredita-se que a melhor cura para o veneno é tomar remédios caseiros como o “específico pessoa” (Fig.1) e as “garrafadas”.  Como não existe comprovação científica de que essas condutas funcionem, o melhor remédio contra picadas é o uso apropriado do soro antiofídico, pois o tratamento indevido pode deixar sequelas ou levar à morte. Apesar de cada comunidade local ter suas crenças, é muito importante divulgar conhecimento científico, para que todos procurem atendimento médico o mais rápido possível em caso de acidentes.

Fig.1: Específico pessoa: usado no tratamento de picadas de cobras e escorpiões, sem comprovação científica.

Algumas religiões representam as cobras como símbolo do mal ou como algo traiçoeiro e amaldiçoado, mas em outras religiões elas são adoradas como deuses. No Egito antigo, o símbolo de uma serpente engolindo o próprio rabo, chamada Ouroboros, representava o conceito de tempo em sua natureza cíclica. A primeira aparição da Ouroboros em sua forma clássica foi feita na tumba do famoso faraó Tuntankhamun (Fig.2). A serpente do Éden, história da bíblia cristã, e o boitatá, figura do folclore brasileiro que já abordamos aqui no blog, são outros exemplos de representações desses animais no imaginário popular.

Fig. 2: Deus do Sol e Ouroboros (serpente engolindo a cauda) representados na tumba de Tuntankhamun. Fonte [2].

Existe uma crença em algumas regiões de que a cobra coral pica com a cauda, então se você segurar sua cauda estará fora de perigo, mas isso é mentira! As corais podem possuir um esporão na ponta da cauda, que parece um ferrão, mas na verdade é apenas uma escama modificada que não tem capacidade de injetar veneno. Outras histórias, que também não são verdadeiras, dizem que “a cobra deixa o seu veneno na folha para atravessar o rio”, ou seja, cobras não picam enquanto nadam e até mesmo que “cobra mal matada vai atrás de quem tentou matar”.

Um mito muito difundido na América Latina, em parte da Europa e no norte da África fala da “cobra-preta” ou “cobra-de-leite que mama em mulher grávida” (Fig.3). Diz a lenda que a cobra-preta aproxima-se de mulheres em fase de lactação enquanto elas estão dormindo e amamentando, ocupa o lugar do bebê e, para que ele não chore, coloca a ponta da cauda na boca da criança. Nada disso é verdade, pois o leite não faz parte da dieta das serpentes, as quais são carnívoras, e elas não possuem o aparato bucal necessário para fazer sucção. Se você nunca ouviu essa história, pode parecer loucura, mas alguns pesquisadores tentaram entender de onde esse mito pode ter surgido. Uma das justificativas está relacionada ao líquido espesso e branco com aspecto de leite coalhado que pode sair de uma cobra que é morta a pancadas. Esse líquido pode ser resultante da digestão do cálcio proveniente das presas em combinação com outras substâncias que acabam lembrando o aspecto de leite. Isso tudo associado ao fato de que muitas vezes as cobras são encontradas dentro das casas em áreas rurais, pois buscam abrigo para se aquecerem, pode ter contribuído para o surgimento dessa lenda.

Fig.3: Cobra-preta ou Cobra-de-leite. Fonte [4].

São muitas as histórias que apresentam as cobras como vilãs, o que acaba incentivando as pessoas a matarem esses répteis, mesmo que a maioria das espécies não sejam perigosas para o ser humano. No último texto falamos da importância desses animais para o equilíbrio do ambiente em que vivem, controlando pragas como ratos e servindo de alimento para outros animais. Apesar dessas lendas serem falsas, é sempre bom lembrar da importância de tratar esses animais com cautela! Então jamais os manuseie sem ter experiência e, se você encontrar uma serpente, saia do seu caminho, procure ajuda da polícia ambiental de seu estado ou ligue para os bombeiros (193). No próximo texto vamos falar um pouco mais sobre o que fazer caso você encontre uma cobra!

Isabela Filgueira Campos

Bruno A. Carizzi – Herpeto Capital

Referências:

[1] FERNANDES-FERREIRA, Hugo et al. Crenças associadas a serpentes no estado do Ceará, Nordeste do Brasil. Sitientibus, v. 11, n. 2, p. 153-163, 2012.

[2] ASSMANN, Jan. Ouroboros. The Ancient Egyptian Myth of the Journey of the Sun. Aegyptiaca. Journal of the History of Reception of Ancient Egypt, n. 4, p. 19-32, 2019.

[3] BERNARDE, Paulo. Anfíbios e Répteis: introdução ao estudo da herpetofauna brasileira 1º Edição São Paulo: Anolisbook, 2012.

[4] Figura 3: Autor desconhecido. https://www.facebook.com/JORNALDOTOLA/photos/a.144996692339277/1043997009105903/

[5] Foto da capa: Albrecht Dürer. Adaptado de: ASSMANN, Jan. Ouroboros. The Ancient Egyptian Myth of the Journey of the Sun. Aegyptiaca. Journal of the History of Reception of Ancient Egypt, n. 4, p. 19-32, 2019.

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