Como descrevemos na última semana, a meditação é uma prática milenar relacionada com bem-estar que tem sido muito buscada recentemente, principalmente durante a pandemia em que vivemos. Nos EUA, o censo determinou que o número de pessoas com sintomas de ansiedade e depressão foi de 42% em relação ao total da população em dezembro de 2020, enquanto em 2019, antes da pandemia, o número era de 11% (1). No Brasil os números são ainda piores, já que segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Ohio (EUA), nosso país lidera o ranking de índices de ansiedade e depressão quando comparado a outros dez países durante a pandemia. No total, 63% dos brasileiros que participaram do estudo apresentaram relatos de ansiedade e 59% sintomas de depressão. Um dos fatores para esse resultado é a falta de uma ação concentrada no combate à pandemia pelos nossos governantes (2). Uma boa notícia é que além de medicamentos depressivos e psicoterapia, diversas pesquisas desenvolvidas puderam comprovar que podemos usar a prática meditativa como uma das formas para evitar e também tratar a depressão.

Meditação pode trazer benefícios para a saúde mental. Fonte: iStockphoto

Muitas doenças como depressão e estresse pós-traumático estão associadas com a diminuição da densidade ou volume do hipocampo, uma estrutura localizada nos lobos temporais do cérebro humano. Apesar de ainda não saberem ao certo as razões dessa diminuição, um dos fatores que podem contribuir é a redução da neurogênese (formação de neurônios) induzida por estresse. De acordo com muitas pesquisas, o hipocampo apresenta papel central nos benefícios da meditação. Como mencionamos no último texto, a meditação tipo “mindfulness”, tem se tornado popular para o tratamento de muitas doenças e envolve principalmente o desenvolvimento da capacidade de viver o presente a partir de uma experiência compassiva e sem julgamentos. Um estudo realizado com participantes que realizaram esse tipo de meditação por 30 minutos por dia durante 8 semanas mostrou que estes apresentaram um aumento da concentração de matéria cinza dentro do hipocampo esquerdo em regiões que estão envolvidas com diversos processos como aprendizagem e memória, regulação emocional e comunicação, resultando na melhora da saúde mental (3). Essa prática meditativa também está associada à prevenção de episódios de depressão recorrente. Outro estudo demonstrou que pessoas que já tiveram três ou mais episódios de depressão, quando praticaram meditação pelo período de 60 semanas, tiveram redução significativa do risco de recorrência de depressão (4). 

A meditação também pode alterar outras regiões do cérebro envolvidas com depressão, como o córtex pré-frontal, o qual se torna hiperativo em pessoas depressivas, e a amídala, a qual é responsável por ativar as glândulas adrenais a liberar o hormônio do estresse, cortisol, em resposta ao medo e ao perigo. Estudos mostraram que a meditação ajuda a quebrar a conexão entre essas duas regiões do cérebro, já que durante a prática é possível ignorar sensações de estresse e ansiedade mais facilmente, o que explica a diminuição do estresse durante a meditação (5). Pesquisadores também demonstraram que a prática meditativa quando associada a prática de exercícios físicos é capaz de reduzir significantemente a depressão a partir do aumento da neurogênese no cérebro de adultos. Nesse estudo, pacientes com depressão tiveram sessões de 30 minutos de meditação seguidas por 30 minutos de prática de exercícios aeróbicos duas vezes por semana durante 8 semanas. Após esse período, os pacientes tiveram diminuição dos sintomas de depressão e também de pensamentos ruminativos (cadeia de pensamentos negativos e repetitivos (6).

Como já dissemos anteriormente, as pesquisas relacionadas com meditação só estão no início, mas já podemos observar que esta prática milenar pode trazer muitos benefícios para nossa saúde mental. Na semana que vem vamos falar sobre meditação e o tratamento de doenças cardíacas. Até lá!

Por Bianca Ribeiro

Referências

(1) Abbott, Alison. COVID’s mental-health toll: how scientists are tracking a surge in depression. Nature 590, 194-195 (2021). https://doi.org/10.1038/d41586-021-00175-z

(2) https://www1.folha.uol.com.br/seminariosfolha/2021/02/brasil-lidera-indices-de-ansiedade-e-depressao-durante-pandemia-aponta-levantamento.shtml Acessado em 7 de março de 2021.

(3) Britta K. Hölzel, James Carmody, Mark Vangel, Christina Congleton, Sita M. Yerramsetti, Tim Gard, Sara W. Lazar. Mindfulness practice leads to increases in regional brain gray matter density. Psychiatry Research: Neuroimaging 191, Issue 1 (2011). https://doi.org/10.1016/j.pscychresns.2010.08.006 

(4) Teasdale, J. D., Segal, Z. V., Williams, J. M. G., Ridgeway, V. A., Soulsby, J. M., & Lau, M. A. Prevention of relapse/recurrence in major depression by mindfulness-based cognitive therapy. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 68(4), 615–623 (2000). https://doi.org/10.1037/0022-006X.68.4.615

(5) https://www.health.harvard.edu/mind-and-mood/how-meditation-helps-with-depression Acessado em 7 de março de 2021.

(6) Alderman, B., Olson, R., Brush, C. et al. MAP training: combining meditation and aerobic exercise reduces depression and rumination while enhancing synchronized brain activity. Transl Psychiatry 6, e726 (2016). https://doi.org/10.1038/tp.2015.225

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