Você já deve ter visto em filmes ou publicidades antigas imagens de pessoas fumando cigarro ou charuto. Toda a composição da cena ou da propaganda (figura 1) leva o espectador a pensar que quem fuma tem muito sucesso: está rodeado de amigos, tem carros luxuosos, está sempre acompanhado de pessoas bonitas e em lugares chiques. Fato é que, sim, a propaganda já fez muita diferença na promoção do ato de fumar (veja mais adiante). 

Figura 1: propaganda antiga de cigarro. Fonte [1]

No entanto, será que apenas os aspectos culturais influenciam no vício do tabaco? Por que algumas pessoas fumam vários maços de cigarro enquanto outras fumam menos? A resposta pode ser encontrada em fatores genéticos. 

Os estudos que buscam entender fatores genéticos que interferem no tabagismo são feitos desde a década de 50, estudando inclusive gêmeos idênticos e famílias inteiras de pessoas fumantes. Uma das principais linhas de pesquisas atuais tenta estabelecer a relação dos genes relacionados aos neurotransmissores com o vício em nicotina. A dopamina, por exemplo, nos dá a sensação de prazer e bem-estar e é um dos neurotransmissores liberados em resposta à nicotina. Pessoas que apresentam déficit na produção de dopamina precisam de estímulos externos, como os providos por drogas, para atingir níveis maiores desse neurotransmissor. Alguns genes são sabidamente relacionados à regulação do fluxo de dopamina em nosso sistema nervoso. A presença de variações em alguns desses genes pode levar à diminuição da liberação de dopamina. Mutações no gene DRD2 possivelmente fazem com que os indivíduos fumem mais e tenham mais dificuldade em largar o vício. 

Genes relacionados ao metabolismo da nicotina no fígado também podem ter influência no vício do tabaco. Indivíduos que metabolizam a nicotina mais devagar tendem a fumar menos, já que os níveis de nicotina e seus metabólitos derivados permanecem por mais tempo no corpo, provocando seus efeitos de maneira mais prolongada. Um dos genes estudados nesses casos é o gene CYP2A6, que codifica uma das principais enzimas envolvida no metabolismo da nicotina.

Aspectos sociais também influenciam no hábito de fumar. Como falamos no início do texto, as publicidades já fizeram muito o papel de influenciar as pessoas a fumarem. As propagandas das diferentes marcas tinham sempre em comum o atrelamento da figura de uma pessoa de sucesso, rica e de um estilo de vida saudável com o cigarro. No caso de publicidades voltadas aos homens, exaltavam a virilidade desses; no caso das mulheres, reforçavam a suposta sensualidade trazida pelo ato de fumar. Nenhuma dessas características é realmente representativa do que é o produto.

Esse tipo de publicidade tem poder de persuasão e estimula as pessoas a fumarem, pois a mensagem passada é de que, se você fuma, você é uma pessoa rica e de sucesso. Por décadas, a publicidade da indústria de cigarro não foi regulamentada. Além disso, muitos filmes de Hollywood mostravam protagonistas glamourosos que fumavam (figura 2).

Figura 2: a atriz Audrey Hepburn com um cigarro em um de seus filmes. Fonte [8]

Porém, em alguns países, existem leis que regulam esse aspecto, a chamada legislação antifumo. No Brasil, por exemplo, é proibida qualquer propaganda de cigarro e outros produtos com tabaco em qualquer tipo de mídia. Além disso, em 31 de maio de 2014 a então presidente Dilma Rousseff sancionou a lei antifumo, que proíbe que pessoas fumem em lugares fechados e visa a diminuição dos efeitos nocivos da fumaça do cigarro e o combate ao tabagismo.

Atualmente um dos desafios no combate ao tabagismo são os cigarros eletrônicos e narguilés. Tidos como descolados, instagramáveis e seguros, eles têm essências e sabores que supostamente disfarçam o cheiro e gosto desagradável dos cigarros tradicionais, porém são tão perigosos quanto os cigarros comuns e, infelizmente, tem um grande apelo ao público jovem. Público jovem esse que, ao começar a fumar durante a juventude, terá ainda mais chances de desenvolver um vício grave em nicotina, de acordo com estudos que correlacionam idade jovem ao iniciar o vício com dificuldade em largar o vício. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA) os cigarros eletrônicos oferecem, sim, riscos à saúde, como dependência química e problemas cardiorrespiratórios. 

No texto da semana que vem, iremos saber como o tabagismo pode ser um fator de risco para complicações causadas pelo COVID-19 e também veremos a importância da celebração do Dia Mundial sem Tabaco.

Por Nathália de Moraes

nathalia.esalq.bio@gmail.com

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Referências

[1] Pinterest: https://br.pinterest.com/pin/712976184731112107/

[2] https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-37132006000600016

[3] https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0378111917305735

[4] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5427481/

[5] https://www.publicacoesacademicas.uniceub.br/RBPP/article/view/5240/pdf

[6] https://www.cafehistoria.com.br/ascencao-e-queda-da-propaganda-tabagista/

[7] http://www.blog.saude.gov.br/index.php/programasecampanhas/34033-ministerio-da-saude-regulamenta-a-lei-antifumo

[8] https://www.youtube.com/watch?v=HrN7Ld2Cdf8

[9] https://saudebrasil.saude.gov.br/eu-quero-parar-de-fumar/mentiras-e-verdades-sobre-o-cigarro-eletronico

[10] https://www.inca.gov.br/campanhas/tabagismo/2019/dispositivos-eletronicos-para-fumar

[11] https://www.cdph.ca.gov/Programs/CCDPHP/DCDIC/CTCB/CDPH%20Document%20Library/Policy/FlavoredTobaccoAndMenthol/FinalFlavoredTobaccoInfographic.pdf

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