De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o tabagismo pode ser definido como o vício do consumo de cigarros e de outros produtos que contenham tabaco. O tabaco, como vimos na semana anterior, pode ser considerado o nome dado às plantas do gênero Nicotiana, em especial Nicotiana tabacum (figura 1), ou o nome do produto agrícola obtido das folhas dessas plantas.

Figura 1: espécime de Nicotiana tabacum [2]

Nas folhas de Nicotiana sp e, por consequência, em seus produtos há a presença da nicotina. A nicotina é considerada uma substância do tipo alcalóide e é classificada como uma droga altamente viciante e estimulante, já que produz a sensação de prazer. A nicotina pode ser absorvida de duas formas: quando chega aos pulmões, se difunde pelos vasos sanguíneos e chega ao cérebro; já na boca, ela é absorvida pelas células da mucosa, chega ao sangue e, por fim, é levada ao cérebro. Esse percurso que a nicotina faz do momento em que é inalada até atingir o cérebro leva de 7 a 19 segundos.

Quando a nicotina do cigarro, por exemplo, chega ao sistema nervoso central, ela estimula a liberação de neurotransmissores, que dão ao usuário a sensação de prazer, bem estar e de recompensa. Com o passar do tempo, o fumante passa a precisar de mais cigarros para conseguir a mesma sensação, o que leva ao aumento no consumo da nicotina e cada vez mais dependência química dessa substância. Além de ser estimulante, a nicotina também pode levar o usuário a uma sensação de relaxamento, principalmente no tônus muscular. Passado o efeito, a nicotina causa a sensação de ansiedade e uma vontade quase incontrolável de consumir mais cigarro; essa é a abstinência.

Da combustão do tabaco presente nos cigarros resultam mais de 4 mil substâncias, dentre elas o alcatrão e o monóxido de carbono (CO). O alcatrão é uma mistura de compostos orgânicos complexos, altamente carcinogênicos, que quando inalados se impregnam nos pulmões. Existem inúmeros estudos, desde a década de 30, que relacionam o alcatrão e outras substâncias ao surgimento de câncer no pulmão e em outros órgãos, como esôfago.  Essas substâncias são altamente tóxicas para as células ciliadas que revestem parte do sistema respiratório. No nível molecular, pesquisas mais recentes mostram que as substâncias tóxicas do cigarro podem induzir mutações em genes supressores de tumores, como o gene p53, aumentando em mais de 80% as chances de um fumante desenvolver câncer de pulmão, se comparado com um não-fumante. 

O monóxido de carbono (CO) ao qual os fumantes são expostos causa uma diminuição na oxigenação dos tecidos do corpo, já que o CO tem uma grande afinidade pela hemoglobina do sangue, ocupando o lugar que deveria ser do oxigênio, podendo levar à hipóxia (baixa oxigenação no corpo). 

Soma-se, ainda, à lista de consequência do tabagismo:  hipertensão, taquicardia, impotência sexual nos homens, menopausa precoce nas mulheres, osteoporose, aborto, má formação fetal, envelhecimento precoce, dentre outras inúmeras consequências (figura 2).

Figura 2: consequências do consumo de cigarro para o corpo. Ilustração de Sofia Helleny.

As consequências não ficam restritas aos fumantes. Os fumantes passivos, aqueles que não fumam mas inalam a fumaça por estarem no mesmo ambiente, também podem sofrer com os problemas causados pelas substâncias tóxicas do tabaco. Um estudo publicado no final de 2017 mostrou que fumantes passivos têm risco elevado de ter infarto do miocárdio e podem ter níveis elevados de colesterol e triglicérides, quando comparados a pessoas que não são expostas à fumaça do cigarro. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 7 milhões de pessoas morrem todos os anos devido ao tabagismo e mais de 1,2 milhões de pessoas morrem por causa da exposição indireta à fumaça do cigarro. 

O tabagismo deixa de ser “apenas” um problema de saúde quando pensamos nas consequências do cultivo de Nicotiana sp pelas grandes indústrias ao redor do mundo. Desmatamento, uso excessivo de combustíveis fósseis em máquinas agrícolas, aplicação de pesticidas em grandes quantidades, diminuição da biodiversidade, despejo ilegal de resíduos tóxicos no solo e na água e a poluição do ar são algumas das consequências apontadas pela OMS em seu mais recente relatório, que também aponta com seriedade o problema da mão de obra contratada nas grandes fazendas que cultivam tabaco. Os trabalhadores, além de serem mal pagos, são diariamente expostos a pesticidas e condições insalubres.  

Com todos esses exemplos podemos ver o quanto o tabagismo é prejudicial, em nível individual e em nível mundial. Suas consequências vão além da saúde, extrapolando para o meio ambiente. No texto da semana que vem iremos entender qual o papel das propagandas no incentivo ao tabagismo e se apenas fatores culturais (ou também fatores genéticos) podem ser determinantes para o vício no tabaco. 

Por Nathália de Moraes

nathalia.esalq.bio@gmail.com

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Referências

[1] http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/tabagismo.htm  

[2] https://jb.utad.pt/especie/Nicotiana_tabacum 

[3] https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/nicotina-entrevista/#:~:text=Nicotina%20%C3%A9%20um%20alcaloide%20(subst%C3%A2ncia,sangue%2C%20vai%20sendo%20excretada%20rapidamente. 

[4] https://www.inca.gov.br/perguntas-frequentes/o-que-causa-dependencia-cigarro 

[5] http://publicacoes.cardiol.br/abc/1996/6606/66060009.pdf

[6] http://www.souzacruz.com.br/group/sites/SOU_AG6LVH.nsf/vwPagesWebLive/DOAGFH2J

[7] https://www.scielo.br/scielo.php?pid=s1806-37132006000100012&script=sci_arttext&tlng=en#:~:text=Approximately%2087%25%20of%20lung%20cancer,among%20smokers%20than%20among%20nonsmokers.

[8] https://www.sbmfc.org.br/tabagismo/

[9] https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/tobacco#:~:text=The%20tobacco%20epidemic%20is%20one,exposed%20to%20second%2Dhand%20smoke.

[10] https://twitter.com/inep_oficial/status/1283793536220102656

[11] https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/255574/9789241512497-eng.pdf;jsessionid=1522FDE64D3C484BF74921CEC548B82A?sequence=1

[12] https://repositorio.ufes.br/bitstream/10/7258/1/tese_7626_DISSERTA%C3%87%C3%83O%20Gisela%20Vicentini.pdf

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