Você já deve ter ouvido alguém falar que precisou fazer uma cirurgia para retirar os dentes de siso – também conhecidos como “dentes do juízo”. Muitas vezes esses dentes não têm espaço para nascer e poderiam prejudicar a dentição da pessoa. Os dentes do siso e outras partes do nosso corpo que aparentemente não têm função específica são chamados órgãos vestigiais. Mas o que isso quer dizer? Existem outros órgãos vestigiais em nosso corpo? Leia o texto abaixo e conheça mais sobre como eles revelam nosso passado distante!

O que são os órgãos vestigiais e por que são considerados evidências da evolução?

Embora nem sempre sejam realmente órgãos, essas estruturas são chamadas de vestigiais ou rudimentares por serem “resquícios” não funcionais de estruturas úteis semelhantes presentes nos nossos ancestrais ou em outra espécie atual. Charles Darwin foi um dos primeiros a notar que os órgãos vestigiais são, na verdade, evidências do parentesco entre espécies. Para isso vamos pensar no caso da cobra com pernas (sim, isso existe!). Algumas espécies de cobras têm pequenas pernas rudimentares (veja aqui!) que não têm função aparente, mas são consideradas pistas de que as cobras descenderam de um animal parecido com os lagartos atuais. Ocasionalmente, há milhões de anos atrás, alguns destes “lagartos” nasceram com pernas menores o que facilitou a locomoção deles em certos lugares. Por causa da vantagem conferida por esse encurtamento, após muitas gerações essa forma com as pernas mais curtas prevaleceu na população e foi herdada pelos descendentes. Desta forma, embora nos lagartos as pernas tenham função e nas cobras não, elas têm a mesma origem – uma ancestralidade comum.

Quais são os exemplos de órgãos vestigiais em nosso corpo?

 – Apêndice: é um pequeno órgão que faz parte do nosso sistema digestório e localiza-se no abdômen (figura 1). Segundo os cientistas, essa estrutura desempenhava papel importante na digestão de alimentos ricos em celulose (como as plantas) que faziam parte da dieta de nossos ancestrais. Devido às inflamações que ele pode causar muitas pessoas precisam retirá-lo cirurgicamente.

Figura 1: apêndice localizado próximo ao intestino grosso. Fonte: apêndice. 1 Ilust., color. In Britannica Escola Online. Web, 2015. Disponível em: . Acesso em: 25 de agosto de 2015.
Figura 1: apêndice localizado próximo ao intestino grosso. Fonte: apêndice. 1 Ilust., color. In Britannica Escola Online. Web, 2015. Disponível em:
<http://escola.britannica.com.br/assembly/133453/O-apendice-e-um-tubo-do-tamanho-de-um-dedo>. Acesso em: 25 de agosto de
2015.

Dentes do siso: nossos ancestrais com uma dieta rica em vegetais fibrosos usavam os dentes do siso (3º molares) (figura 2) para ajudar na mastigação. Com o tempo a nossa dieta mudou, passamos a comer mais carne e nossa mandíbula ficou menor. Desta forma, os dentes do siso perderam o espaço que tinham na boca, o que leva muitas pessoas a retirá-los.

Figura 2: dentes do siso – Wisdom tooth. Fonte:  https://www.emergencydentistin.london/wisdom-teeth-extraction-london.html . Acesso em: 25 de agosto de 2015.
Figura 2: dentes do siso – Wisdom tooth. Fonte: https://www.emergencydentistin.london/wisdom-teeth-extraction-london.html . Acesso em: 25 de agosto de
2015.

– Músculos da orelha: para os nossos ancestrais era importante ter a capacidade de mover as orelhas independentemente da cabeça e perceber se um predador estava próximo; porém, hoje em dia poucos de nós conseguimos movimentar nossas orelhas, ou seja, estes músculos não são mais funcionais. No entanto, nós conseguimos virar nosso pescoço e cabeça para os lados e procurar algo que esteja nos espreitando. Agora observe seu cachorro/gato e veja como ele move constantemente suas orelhas: nessas espécies os músculos ainda são importantes e funcionais (figura 3).

Figura 3: gato com as orelhas em movimento graças aos músculos presentes nestas. Fonte: http://www.quora.com/Is-it-possible-that-a-body-part-is-capable-of-being-moved-at-our-will-but-which-we-cant-because-our-brain-is-just-not-aware-that-it-can-move-the-body-part
Figura 3: gato com as orelhas em movimento graças aos músculos presentes nestas. Fonte: http://www.quora.com/Is-it-possible-that-a-body-part-is-capable-of-being-moved-at-our-will-but-which-we-cant-because-our-brain-is-just-not-aware-that-it-can-move-the-body-part
Figura 3: cachorro com as orelhas em movimento graças aos músculos destas. Fonte: https://encrypted-tbn1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQp7vo3fT0oY9LzosYEiPM-2W3QV4bTW-8IE4kxvMmjjFlLRTa0
Figura 3: cachorro com as orelhas em movimento graças aos músculos destas. Fonte: https://encrypted-tbn1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQp7vo3fT0oY9LzosYEiPM-2W3QV4bTW-8IE4kxvMmjjFlLRTa0

– Órgão vomeronasal: essa estrutura localizada na cavidade nasal é presente em muitos vertebrados e tem a função de detectar sinais químicos denominados ferormônios, muito importantes para o comportamento sexual, por exemplo. Alguns cientistas afirmam que os nossos órgãos vomeronasais – pequenas bolsas de 2 mm de profundidade – não são inervados como, por exemplo, nos cachorros, gatos e cobras e por isso não são mais funcionais. Os gatos, por exemplo, conseguem perceber os ferormônios franzindo a testa e abrindo a boca, expondo a língua, como se estivessem “sorrindo”, deixando assim que essas pequenas moléculas entrem em contato com seus órgãos vomeronasais (figura 4).

Figura 4: gato exibindo o comportamento para perceber moléculas como os ferormônios pelo órgão vomeronasal. Fonte imagem: http://www.petmeds.org/petmeds-spotlight/why-does-my-cat-make-that-funny-face/
Figura 4: gato exibindo o comportamento para perceber moléculas como os ferormônios pelo órgão vomeronasal. Fonte imagem: http://www.petmeds.org/petmeds-spotlight/why-does-my-cat-make-that-funny-face/

 – Membrana nictitante: também chamada de terceira pálpebra é uma membrana que fica no canto interno do olho e permite a sua lubrificação e proteção. Podemos vê-la nos olhos das aves e dos répteis, como a coruja da figura 5. Nos humanos e em alguns outros primatas ela se atrofiou e não se movimenta horizontalmente, mas conseguimos vê-la como uma pequena membrana rosa no canto do olho (figura 5).

Figura 5: membrana nictitante em coruja (esquerda) e no ser humano – indicada pela seta (direita). Fonte da imagem da esquerda: http://cdn2.arkive.org/media/BC/BCEB3A7D-6F93-43D5-9B02-173A09C116A1/Presentation.Large/great-horned-owl-with-nictitating-membrane-visible.jpg
Figura 5: membrana nictitante em coruja (esquerda) e no ser humano – indicada pela seta (direita). Fonte da imagem da esquerda: http://cdn2.arkive.org/media/BC/BCEB3A7D-6F93-43D5-9B02-173A09C116A1/Presentation.Large/great-horned-owl-with-nictitating-membrane-visible.jpg

Além de estruturas e órgãos alguns cientistas consideram inclusive que alguns comportamentos possam ser também considerados “vestígios”. Por exemplo, o reflexo que os bebês têm de segurar algum objeto fortemente com os dedos – reflexo este compartilhado com os chimpanzés. Esses “vestígios” são verdadeiras provas de que nosso corpo (e dos outros animais também) está cheio de relíquias que nos conectam aos nossos ancestrais e nos fazem parentes.

E então, você acha que nosso corpo tem mais órgãos vestigiais? Deixe seu comentário na nossa página!

Até a próxima,

Por Nathália de Moraes

nathalia.esalq.bio@gmail.com

 

Referências

[1] American Museum of National History. (sem data). Acessado de http://www.amnh.org/exhibitions/past-exhibitions/darwin/evolution-today/how-do-we-know-living-things-are-related/vestigial-organs em agosto de 2015.

[2] How Stuff Works: vestigial organ. (sem data). Acessado de http://health.howstuffworks.com/human-body/parts/vestigial-organ1.htm em agosto de 2015.

[3] Viegas, J. (2011). How snakes lost their legs. Acessado de http://news.discovery.com/animals/zoo-animals/snakes-lost-legs-evolution-110207.htm em agosto de 2015.

[4] Five useless body parts. (2012). Acessado de http://www.livescience.com/21513-vestigial-organs.html em agosto de 2015.

[5] O órgão vomeronasal e a atração sexual. (sem data). Acessado de http://www.afh.bio.br/sentidos/sentidos8.asp em agosto de 2015.

[6] Órgão vomeronasal. (2013). Acessado de http://anatomiaanimaldescritiva.blogspot.com.br/2013/08/orgao-vomeronasal.html em agosto de 2015.

[7] The nictitating membrane: the third eylid. (2014). Acessado de http://www.arkinspace.com/2014/06/the-nictitating-membrane-third-eyelid.html em agosto de 2015.

 

 

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