Na nossa rotina, é comum estarmos dentro do que vou chamar de bolhas. Dentro delas, nos sentimos confortáveis com pessoas que pensam como nós, que entendem nossa gírias, expressões e modo de falar, etc. 

Na bolha da ciência, posso falar termos como endogamia e posso fazer piada com p=0.06 e meus colegas pesquisadores me entendem. Posso falar de análises estatísticas, debater sobre as limitações de pesquisas e compartilhar frustrações da rotina de laboratório. Faço tudo razoavelmente tranquila, porque meus colegas conhecem meu contexto.  

Quando escrevo uma matéria de divulgação científica, me imagino conversando com vocês. Sei que vocês são diversos, mas que a maioria é do Brasil e de outros países de língua portuguesa (como Portugal e Moçambique), que a maioria pertence à classe média, que têm acesso a redes sociais e que têm um grau de instrução elevado, alguns ainda cursando ensino médio, mas já pensando na faculdade, ou até já com um diploma de graduação ou pós. Essa é outra bolha, a das pessoas que espontaneamente querem saber sobre ciência. Fico feliz por saber que vocês existem!  

Porém, muita gente está fora dessas bolhas. Muitas pessoas não têm acesso à internet, outras acham que ciência não é assunto pro dia a dia, algumas nunca tiveram oportunidade e estímulo para aprender ciência, outras acham que estão velhas demais para aprender, algumas nem sabem ler. É com essas pessoas que eu mais quero falar de ciência. Sei que é uma tarefa bem mais desafiadora, porque a adequação de linguagem é mais trabalhosa, porque esse público não vai procurar meu conteúdo espontaneamente e pode até rejeitar o conteúdo ativamente. A desinformação e o negacionismo da ciência são estruturais e históricos na nossa sociedade e precisam ser combatidos com dados, fatos, mas também com muita empatia. Então, termino esse texto te convidando a conhecer o projeto @abcDNA, onde estou exercitando sair das minhas bolhas. Sigo aprendendo e agradeço muito a cada pessoa que me acompanha!

por Patricia Sujii

sujiips@gmail.com

Imagem de capa: editado de Freepik.

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