Neste texto, vou contar duas histórias muito bonitas sobre restauração de ambientes degradados. São relatos que provam que nem tudo está perdido e que a restauração ecológica pode trazer muitos benefícios para nós.

 

Vamos começar com o sul da Amazônia, na bacia do Rio Xingu, no Mato Grosso. Essa área tem sido desmatada por décadas para criação de pastos e plantio de soja. Desde 2006, o Instituto Socioambiental e seus parceiros têm restaurado florestas na bacia do Rio Xingu. Quando pensamos em reflorestamento, é muito comum vir à mente aquela imagem de pessoas plantando mudas de árvores de várias espécies diferentes, esperando que em alguns anos aquilo se torne uma floresta madura e cheia de vida. O reflorestamento com plantio de mudas é válido e funciona em alguns casos, mas é um processo caro que exige grande investimento em manutenção nos anos iniciais. Então, estamos aprendendo que nem sempre essa é a estratégia mais adequada. Apesar do Mato Grosso ser um estado com altas taxas de desmatamento, ao redor dos rios ainda existe vegetação nativa e ela pode servir de fonte de sementes. Por isso, a equipe que fez o reflorestamento da bacia do Rio Xingu optou por uma estratégia de plantio direto de sementes nas áreas a serem restauradas, que é uma estratégia com menor custo. Primeiro, eles prepararam a área (araram a terra, retiraram gramíneas invasoras e adubaram o solo), depois levaram sementes de espécies nativas. Algumas das espécies são daquelas que crescem rápido e fazem sombra para as outras, que por sua vez crescem mais devagar e precisam de um ambiente mais sombreado e fresco. Isso permite que cada planta cresça e se reproduza, que sementes de áreas vizinhas também cheguem ao local carregadas pelo vento ou por animais. Pesquisadores da UnB, da Embrapa e do Instituto Socioambiental estudaram 72 dessas áreas restauradas e encontraram alta biodiversidade, encontraram inclusive espécies que não foram plantadas, que chegaram lá espontaneamente. Eles mostraram que com plantio direto de sementes foi possível começar a recuperar, com um custo menor, uma parte da floresta amazônica desmatada.

 

Minha segunda história se passa no Cerrado, que diferente do que muitos acreditam, é um bioma riquíssimo em biodiversidade. Quando pensamos em Cerrado, logo lembramos daquelas árvores tortas em meio a um campo de grama. Exatamente por ser um ambiente com mais arbustos, gramíneas e outras herbáceas (carinhosamente chamadas de matinho) do que árvores, e por ter uma alta diversidade de espécies, plantar mudas não é uma estratégia de restauração muito eficiente. Um grupo de pesquisadores da Embrapa e da UnB utilizaram uma estratégia chamada de translocação de topsoil para recuperar uma área desmatada. Para isso, eles retiraram solo com 40 cm de profundidade (topsoil) de uma outra área que seria desmatada para construção de prédios e levaram para área que seria recuperada. Esse solo é rico em pedaços de plantas que podem rebrotar e sementes que podem germinar na nova área. Assim, foi possível recuperar uma grande diversidade de espécies, sem precisar ficar escolhendo cada espécie e plantando cada semente. Acaba sendo uma estratégia mais barata e que tem se mostrado bastante eficiente para recuperação de áreas em que as herbáceas são mais abundantes.

 

Eu já contei uma outra história que vale a pena conhecer sobre como recuperar a mata ao redor do reservatório de água do município evitou o racionamento de água na seca de 2013 no interior de São Paulo. Veja essa história aqui: https://cienciainformativa.com.br/pt_BR/florestas-sao-importantes-apenas-para-evitar-racionamento/

 

Espero que essas histórias tenham começado a trazer um pouco de otimismo para esse período escuro que estamos vivendo. É claro que é preciso investimento para que isso tudo se realize, mas estamos encontrando caminhos com custos menores, o que é sempre uma boa notícia!

No texto da semana que vem, vamos conhecer mais histórias sobre a recuperação de ambientes degradados, mas olhando por uma lente ainda mais diferente.

 

por Patricia Sujii

sujiips@gmail.com

 

Referências:

Rodrigues, S. B., Freitas, M. G., Campos-Filho, E. M., do Carmo, G. H. P., da Veiga, J. M., Junqueira, R. G. P., & Vieira, D. L. M. (2019). Direct seeded and colonizing species guarantee successful early restoration of South Amazon forests. Forest Ecology and Management, 451, 117559.

Rodrigues, R. R., Leitão Filho, H. D. F., & Crestana, M. S. M. (1992). Revegetação do entorno da represa de abastecimento de água do município de Iracemápolis, SP. Simpósio sobre recuperação de áreas degradadas. Curitiba, PR. Anais. Curitiba, PR, sp.

Rodrigues, R. R., Brancalion, P.H.S, Isernhagen, I. (2009). Pacto pela restauração da mata atlântica: referencial dos conceitos e ações de restauração florestal. LERF; Piracicaba: ESALQ.

Pilon, N. A., Assis, G. B., Souza, F. M., & Durigan, G. (2019). Native remnants can be sources of plants and topsoil to restore dry and wet cerrado grasslands. Restoration ecology, 27(3), 569-580.

Foto de capa: Sushobhan Badhai em Unsplash

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