A castanha do Brasil, também conhecida como castanha do Pará, ganhou destaque nas mídias em 2017, quando seu preço quase dobrou em alguns locais. Isso foi resultado de uma menor oferta do produto no mercado. A maior parte da produção dessas castanhas ocorre em árvores dentro de florestas nativas na Amazônia (98%). Essas castanhas são coletadas na natureza por extrativistas e normalmente vendidas por cooperativas. Então, a disponibilidade da castanha no mercado pode depender da existência de árvores na floresta, da formação de frutos nessas árvores, do regime de chuvas e de outros eventos que não são controlados por quem quer vendê-las. De acordo com especialistas em castanheiras do Brasil, a baixa produção de frutos em 2017 foi resultado de um período atípico de seca na Amazônia (Veja a notícia aqui).

Nos últimos tempos, a exploração da semente da castanheira tem aumenta por conta da demanda do mercado, mas, será que isso seria o suficiente para colocar a castanheira em espécie ameaçada de extinção?

Vários pesquisadores já se fizeram a mesma pergunta. Felizmente, a resposta é “Não!  Nós podemos continuar nos deliciando com a castanha do Brasil!”.

Um grupo de pesquisadores de diversas instituições brasileiras e americanas, liderados pela dra. Lúcia Wadt da Embrapa, conduziram uma série de pesquisas sobre o assunto. Um dos trabalhos realizados no vale do Rio Acre, publicado em 2017, indicou que a exploração das sementes não prejudica a diversidade genética nas populações exploradas. Essa diversidade é essencial para que essas populações possam resistir a mudanças ambientais.

O outro estudo foi realizado ao longo de 14 anos e publicado em 2018. Ele indicou que uma exploração muito intensa, ou seja, coletar uma proporção muito grande das sementes produzidas na região pode ter um impacto negativo nas populações de castanheira. Mudanças nos regimes de chuva também podem afetar a reprodução da castanheira. Porém, o impacto desses fatores é lento e não se mostra como uma ameaça a curto prazo. Um risco maior e mais imediato é decorrente da conversão da floresta em áreas modificadas pelo homem, como pastagens e áreas agrícolas. Isso ameaça as castanheiras e consequentemente um grande grupo de pessoas que depende do extrativismo para obter sua renda.

Um terceiro estudo, publicado também em 2018, indicou que a estratégia de coleta de castanhas adotada pela maioria dos extrativistas permite que parte dessas castanhas sejam usada como alimento pela cutia, que é o principal dispersor dessa semente. Isso garante que a cutia tenha seu alimento e que parte das castanhas consigam germinar e se tornar novas árvores, mesmo com a exploração.

Esses resultados me lembram do meu período de coletas de amostras durante o mestrado, quando trabalhei com castanheiras. Nós tínhamos um guia dentro da floresta que era um rapaz que vivia na região e era extrativista de castanha. Em uma das tardes, enquanto contávamos o número de frutos produzidos por uma das árvores, esse rapaz de vez em quando jogava um ou outro ouriço, como é chamado o fruto da castanheira, na mata, e dizia: “Esse é da cutia”. Em outro momento, ele parou a caminhada na trilha, segurou o caule ainda fino e delicado de uma castanheira jovem, e disse: “Esse é o futuro do castanhal!”. Esses dois momentos reforçam o que as pesquisas indicam sobre como esses extrativistas, que moram na mata ou próximos a ela, são guardiões das nossas florestas.

A castanheira é apenas uma das espécies exploradas de área de floresta nativa no Brasil. Todos os nossos biomas, sejam eles de floresta ou de campos, guardam valiosos tesouros que podem ser explorados de forma sustentável e podem gerar renda e salvar vidas. Alguns são alimentos, outros são fontes de energia, produtos famacológicos, etc. Além disso, esses ambientes são cheios de organismos que têm seu valor ecológico, que contribuem para a riqueza da vida, independente do potencial econômico. Por isso, é importantíssimo preservar o que ainda temos.

por Patricia S. Sujii

sujiips@gmail.com

Referências

dos Santos, R. D. S. O., Campos, T., Martins, K., & de Oliveira Wadt, L. H. (2017). Estrutura genética de duas populações naturais de Bertholletia excelsa Bonpl. sob exploração no Vale do Rio Acre. Biota Amazônia (Biote Amazonie, Biota Amazonia, Amazonian Biota), 7(3), 37-40.

Wadt, L. D. O., Baldoni, A. B., Silva, V. S., Campos, T. D., Martins, K., Azevedo, V. C. R., … & Sebbenn, A. M. (2015). Mating system variation among populations, individuals and within and among fruits in Bertholletia excelsa. Silvae Genetica, 64(1-6), 248-259.

de Oliveira Wadt, L. H., Faustino, C. L., Staudhammer, C. L., Kainer, K. A., & Evangelista, J. S. (2018). Primary and secondary dispersal of Bertholletia excelsa: Implications for sustainable harvests. Forest Ecology and Management, 415, 98-105.

Bertwell, T. D., Kainer, K. A., Cropper Jr, W. P., Staudhammer, C. L., & de Oliveira Wadt, L. H. (2018). Are Brazil nut populations threatened by fruit harvest?. Biotropica, 50(1), 50-59.

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