O jeito que você fala revela muito sobre quem você é. E eu não estou falando sobre as palavras que você usa, mas, sim, sobre o jeito que você produz cada som, mesmo sem se dar conta. Pensando nessa relação entre o nosso jeito de falar e como a gente se apresenta, o cientista americano Jeremy Calder decidiu investigar se a maneira como drag queens produzem alguns sons é diferente quando elas estão vestidas e se comportando como homens, de quando elas estão personificando a personagem feminina da drag.

Se você está na dúvida sobre o significado dessa expressão, uma drag queen é uma pessoa, normalmente alguém que nasceu do sexo (biológico) masculino, que representa uma personagem feminina (com maquiagem, roupas, modo de se comportar), geralmente para entreter outras pessoas. Uma das características marcantes dessas personagens femininas é a extravagância – nas cores, nos tamanhos das roupas e dos movimentos, no comportamento.

Existe um som no inglês (a língua em que esta pesquisa foi feita) bem interessante do ponto de vista social: é o som /s/, que, a depender da forma que é pronunciado, tem associações sociais a gênero e orientação sexual. Por exemplo, o /s/ pronunciado mais na frente da boca (o que o torna mais agudo) é muito associado a feminilidade e a homens gays – tanto na produção quanto na percepção da fala. Ainda, a duração do /s/ também é ligada a orientação sexual: alguns estudos já mostraram que homens gays produzem o /s/ mais longo que héteros (e que é uma diferença que outras pessoas também percebem na fala deles, mesmo inconscientemente). Além disso, várias pessoas descrevem esse /s/ frontal como áspero e cortante (harsh e sharp, em inglês).

O que Calder decidiu fazer, então, foi gravar uma conversa com algumas drag queens de São Francisco, na Califórnia, enquanto elas “se montavam”, isto é, enquanto elas aplicavam maquiagem, peruca, e outros acessórios para incorporar a persona feminina. Então, o pesquisador analisou os sons que elas produziam na sua fala durante toda essa transformação.

Figura: Lorelay Fox é a drag queen brasileira que produz o canal Parou Tudo, no Youtube. Na foto, você pode ver o antes e o depois: a transformação de Danilo em Lorelay.

As suas descobertas foram bem interessantes! No decorrer da transformação, as participantes do estudo falavam cada vez mais rápido, o que fazia que os seus /s/’s fossem ficando mais curtos e menos agudos – embora continuassem mais agudos do que os /s/’s de homens héteros. Além disso, o seu /s/ passava a ser mais forte (mais “alto”) relativamente ao resto dos sons na palavra.

Calder explica que essas mudanças são ligadas à elaboração da imagem da personagem que elas estão interpretando enquanto drag queens. Elas constroem essa persona com auxílios visuais (como maquiagem e peruca) e comportamentais, mas também sonoros. A fala mais rápida e mais forte delas ajuda na caracterização da personagem grande e extravagante. O uso do /s/ frontal contribui para a imagem cortante que elas constroem, e ele é um realce linguístico da feminilidade não-normativa delas e do seu pertencimento àquela comunidade LGBT.

E essa transformação linguística acontece de forma gradual – enquanto essas drag queens se montam, incorporando aos poucos a estética visual desejada, a fala delas reflete a persona em que elas estão se tornando. Tudo isso fica ainda mais interessante quando a gente se lembra de que isso acontece de forma natural, inconsciente – nenhuma delas decide produzir os seus /s/’s de um jeito ou de outro para algum propósito; isso apenas acontece.

E esses resultados fazem pensar: quais serão os pequenos detalhes do nosso jeito de falar que revelam quem a gente é e com que grupos sociais a gente se identifica? E, mais ainda, quais são as particularidades que mostram como a gente quer que as outras pessoas nos percebam? A sua língua diz mais do que você pensa.

Thomaz Offrede

tom.offrede@gmail.com

Referências

Calder, J. (2018). The fierceness of fronted /s/: Linguistic rhematization through visual transformation. https://doi.org/10.1017/S004740451800115X

Linville, S. E. (1998). Acoustic correlates of perceived versus actual sexual orientation in men’s speech. Folia Phoniatrica et Logopaedica, 50(1), 35–48. https://doi.org/10.1159/000021447

 

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