“Árvores tortuosas de baixo porte, adaptadas ao clima e a queimadas, distribuídas esparsamente em uma área de gramíneas”, geralmente essa é a primeira imagem que vem a nossa cabeça quando pensamos no Cerrado. Apesar de ser uma imagem válida para algumas áreas de Cerrado, o bioma vai muito além disso. Ele é um rico mosaico de formas de vegetação (fitofisionomias) que abrange desde áreas abertas de campo – os chamados “campos limpos” – a áreas florestais densas ao longo de rios e córregos com árvores que chegam a mais de 30 m de altura (as chamadas “matas de galeria”).

Essa diversidade de formações, com transições geralmente abruptas entre uma fitofisionomia e outra, sempre me encantou. Antes mesmo de iniciar minha graduação em Ciências Biológicas, eu já gostava de fazer trilhas e apreciar o serpentear de cores e formas do Cerrado que saltam aos olhos em um verdadeiro espetáculo natural.

Motivado em partes por esse encanto, eu resolvi verificar em minha pesquisa de Mestrado como áreas de diferentes fitofisionomias do bioma contribuem para a diversidade de pequenos mamíferos (roedores e marsupiais) de uma determinada região.
O trabalho consistiu na captura e soltura dos animais em áreas de cerrado sensu stricto (formação com árvores e arbustos com 3 a 8 m de altura e com uma cobertura ainda considerável de vegetação herbácea), cerradão (formação florestal com estrato arbóreo de 8 a 15 m de altura) e mata de galeria (já mencionada anteriormente). Todas localizadas na Área de Proteção Ambiental (APA) Gama Cabeça-de-Veado, situada no Distrito Federal.

Nos três tipos de fitofisionomia, eu disponibilizei armadilhas no solo e no sub-bosque (a uma altura entre 1,50 e 2 m). Nas áreas florestais de cerradão e mata de galeria, eu adicionalmente disponibilizei armadilhas no dossel (estrato superior da floresta formada pelas copas das árvores). Até então, esse era o segundo trabalho realizado no Cerrado que envolvia a captura de pequenos mamíferos no dossel (o trabalho anterior de Hannibal & Cáceres (2010) foi realizado no Mato Grosso do Sul, a uma distância de aproximadamente 1000 km das áreas do meu estudo).

Essa ideia de captura no dossel me acompanhava desde a minha graduação, quando já estagiava realizando atividades com pequenos mamíferos e tive contato com pesquisas realizadas em Floresta Amazônica e Mata Atlântica que mostravam a importância dessa forma de captura para uma avaliação mais adequada da diversidade de animais (Grelle, 2003; Vieira & Monteiro-Filho, 2003; Lambert et al., 2005; Prevedello et al., 2008). Alguns desses trabalhos inclusive apresentavam espécies capturadas exclusivamente nas armadilhas de dossel. Para saber mais sobre esse tipo de captura de animais, leia o Box 1.

Box 1 – Captura de animais nas alturas

O processo de captura com armadilhas no alto das árvores é bastante trabalhoso e, por isso, muitos pesquisadores acabam dispensando essa estratégia metodológica nos seus estudos. Descrevendo-o em etapas:

1ª) escolher os melhores locais onde serão dispostas as armadilhas, o que envolve verificar visualmente a espessura de galhos e a conexão entre as árvores;

2ª) lançar uma corda por cima do galho, o que envolve inicialmente usar um estilingue para atirar uma chumbada de pesca presa a um fio de nylon sobre o galho escolhido e, em seguida, amarrar a corda-guia na extremidade do fio de nylon para puxá-la sobre o galho;

3ª) prender um suporte de madeira na extremidade da corda e ver se é possível içá-lo ao alto. Aqui tem que torcer para ter escolhido um bom local que não atrapalhe o deslize da corda no galho;

4ª) depois de instalar todos os sistemas de corda-suporte nas áreas, vem o mais difícil: prender a armadilha no suporte, colocar o alimento-isca usado para a atração dos animais e depois içá-la com a sua porta de entrada aberta até o alto da árvore. Difícil porque tem que puxar o suporte (que não é lá muito leve) devagarinho, torcendo para que a corda não travasse no meio do caminho. Se puxar a corda com força ou caso ela trave no caminho, a porta da armadilha pode se fechar.

5ª) revisar as armadilhas diariamente para verificar a presença de animais, repor o alimento-isca e içar novamente o suporte até o alto da árvore.

Descrevendo parece até ser simples, não é?! Mas acredite, dá uma trabalheira danada fazer isso para um conjunto de armadilhas, em mais de uma área no mesmo dia e ainda tendo várias outras armadilhas para revisar!

Acabei capturando uma nova espécie de roedor em uma das armadilhas de dossel. Uma nova espécie de um gênero de roedor arborícola Phyllomys, até então descrito apenas em Mata Atlântica e Floresta Amazônica. Devido à localização geográfica central em relação às outras espécies do gênero, nomeei a espécie de Phyllomys centralis*.

Essa descoberta torna-se ainda mais interessante ao se considerar que ela foi feita em uma área da Fazenda Água Limpa, unidade de estudos da UnB, onde há trabalhos com comunidades de pequenos mamíferos desde o final da década de 70. Isso demonstra que a aplicação de uma nova metodologia de amostragem pode trazer novos resultados científicos, mesmo em áreas que já foram bastante estudadas. Também ilustra que ainda há muito a se descobrir no Cerrado.

O resultado é particularmente importante em um bioma que ainda é carente de pesquisas, já que tradicionalmente no Brasil os trabalhos envolvendo comunidades animais foram realizadas na região sul e sudeste e em algumas regiões amazônicas. Ainda hoje, alguns grupos do bioma (ex.: peixes) são pouquíssimo conhecidos.

Soma-se ainda ao quadro que o Cerrado, devido ao seu grande endemismo e à grande perda de habitats por processos antrópicos, é considerado um dos 34 hotspots** mundiais (Mittermeier et al., 2004) e, sendo assim, faz-se urgente a adoção de estratégias de conservação no bioma.

Entretanto, as políticas de conservação no bioma ainda são muito tímidas e relativamente recentes. Até pouco tempo atrás, o bioma era considerado pobre do ponto de vista biológico e visto apenas como uma região que deveria ser colonizada pela agropecuária e por assentamentos urbanos no processo de interiorização da ocupação urbana no país.

Mesmo com a maior visibilidade do bioma no cenário da conservação, a sua taxa de desmatamento entre os anos de 2002 e 2011 foi de 1% ao ano (2,5 vezes maior do que a taxa na Amazônia) e atualmente apenas 7,5% da sua área total é protegida por unidades de conservação, enquanto na Amazônia a proteção se dá em 46% da sua área (Strassburg et al., 2017).

Por fim, gostaria de dizer que, apesar de alguns recentes avanços, o Cerrado e outros biomas nunca estiveram sob tanto risco potencial. Devemos temer e nos manter atentos ao futuro da conservação no Brasil quando políticos notórios declaram publicamente que consideram a fiscalização ambiental como uma “indústria da multa”, e se posicionam claramente contra a existência de órgãos de defesa do meio ambiente, e contra a demarcação de terras indígenas e a titulação de propriedades quilombolas.

Por Anderson Paz

* Caso tenha curiosidade em saber mais a respeito do gênero e da nova espécie, o meu colega Leonardo F. Machado, eu e outros pesquisadores publicamos recentemente um artigo intitulado Phylogeny and biogeography of Phyllomys (Rodentia: Echimyidae) reveal a new species from the Cerrado and suggest Miocene connections of the Amazon and Atlantic Forest.
** Hotspots: regiões com pelo menos 1500 espécies de plantas endêmicas (exclusivas), que já perderam mais de 70% de sua vegetação original)

Referências

Grelle, C.E.V. 2003. Forest structure and vertical stratification of small mammals in a secondary Atlantic Forest, Southeastern Brazil. Studies on Neotropical Fauna and Environment 38:81–85.Hannibal, W., E N.C. Cáceres. 2010. Use of vertical space by small mammals in gallery forest and woodland savannah in south-western Brazil. Mammalia 74:247–255.

Lambert, T.D., J.R. Malcolm, e B.L. Zimmerman. 2003. Variation in Small Mammal Species Richness by Trap Height and Trap Type in Southeastern Amazonia. Journal of Mammalogy 86: 982–990.

Mittermeier, R. A., P. Robles-Gil, M. Hoffmann, J. Pilgrim, T. Brooks, C.G. Mittermeier, J. Lamoreux, E G. A. B. da Fonseca. 2004. Hotspots revisited. CEMEX, Mexico City:1–390.Prevedello, J.A., P. Ferreira, B.S. Papi, D. Loretto, e M.V. Vieira. 2008. Uso do espaço vertical por pequenos mamíferos do Parque Nacional Serra dos Órgãos, RJ: um estudo de 10 anos utilizando três métodos de amostragem. Revista Espaço e Geografia 11:35–58.

Strassburg B.  B. N., T. Brooks , R. Feltran-Barbieri, A. Iribarrem, R. Crouzeilles, R. Loyola, A.E. Latawiec, J.F. Oliveira Filho, et al. 2017. Moment of truth for the Cerrado hotspot. Nature Ecology & Evolution 1 (4): 0099.

Vieira, E.M., e .L.A. Monteiro-Filho. 2003. Vertical stratification of small mammals in the tlantic rain forest of south-eastern Brazil. Journal of Tropical Ecology 19: 501–507.

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