É interessante pensar em como a tecnologia evolui rápido e de que forma ela  influencia o nosso dia-a-dia. Hoje, todas as pessoas carregam no bolso um dispositivo milhões de vezes mais rápido do que os computadores da NASA que levaram o homem à lua em 1969: o celular.

Na última década, houve um significativo aumento no uso desses dispositivos. Em 2014, havia mais celulares do que pessoas no mundo. A miniaturização da tecnologia, a criação de aparelhos com a tela maior e responsiva ao toque e a revolução da internet 3G mudaram drasticamente a forma como nos relacionamos com essa tecnologia.

Esse novo paradigma da ‘constância tecnológica’ fomentou diversos estudos quanto aos possíveis impactos em nossa saúde e o resultado pareceu ser alarmante: o uso excessivo do celular está associado com ansiedade, postura inadequada e perda de qualidade do sono. Um artigo do New York Times argumentou que esse vício em tecnologia poderia ser cunhado como uma nova droga: a heroína digital.  Mas será que é tudo isso mesmo?

Para começar, será que é possível nos tornarmos viciados em utilizar o celular?

O que é ‘estar viciado’?

De acordo com a American Psychiatric Association, adicção é uma doença primária e crônica do sistema de motivação e recompensa do cérebro. O vício é caracterizado pela inabilidade de abster, um desejo exacerbado pela coisa (chamado craving em inglês) e a continuação da atividade mesmo com a percepção de que ela impacta negativamente a vida da pessoa.

O vício tem diversos fatores, inclusive genéticos: hoje nós sabemos, por exemplo, que filhos de pais alcoólatras, mesmo crescendo em famílias diferentes, possuem uma predisposição maior que a média da população a também serem viciados em álcool ().

Como esses fatores genéticos afetam o nosso comportamento, ainda é um assunto muito discutido na literatura, mas é possível estabelecer algo em comum no comportamento adictivo de pessoas diferente: como o cérebro dessas pessoas funciona.

O centro de recompensa do cérebro é composto pelo córtex pré-frontal e conexões com regiões mais basais – como as conexões dopaminérgicas com a área tegmental ventral (VTA na sua sigla em inglês).

Circuito dopaminérgico do cérebro

O cérebro de pessoas com vícios é diferente de pessoas saudáveis porque o sistema de recompensa e planejamento delas está em desbalanço – e isso gera atividades impulsivas.

Um exemplo que reforça a relação do córtex pré-frontal com comportamentos impulsivos é a história de Phineas Gage. Nascido em 1823, Gage foi um operário americano. Certo dia, trabalhando na construção de uma ferrovia, houve uma explosão não premeditada que lançou uma barra de metal contra a cabeça de Gage. O objeto perfurou o olho esquerdo e atravessou o córtex pré-frontal do trabalhador.

Mesmo em uma época sem antibióticos, Gage conseguiu sobreviver ao acidente e retornou ao seu trabalho em menos de um ano. Ele, surpreendentemente, não teve muitas alterações cognitivas – suas memórias estavam intactas e suas funções cognitivas essencialmente inalteradas.

A única diferença perceptível foi a mudança na personalidade de Gage: antes do acidente, ele era considerado uma pessoa polida e educada, um trabalhador pontual e exímio. Depois do acidente, ele passou a ser agressivo, imprudente, incapaz de ouvir conselhos. Não conseguia mais trabalhar como antes justamente por conta de sua impulsividade.

Por mais inusitada que pareça, histórias parecidas ocorreram  em outros momentos, inclusive em camundongos: lesões no córtex pré-frontal correlacionam-se com comportamentos impulsivos, por exemplo, através de apostas e consumo de drogas.

O estado de adicção foi inicialmente descrito com base no uso de drogas – uma vez que elas modulam diretamente o sistema de recompensa do cérebro e possuem consequências devastadoras na vida do indivíduo.

Por que as drogas são viciantes?

O nosso sistema de recompensa (mostrado na primeira imagem), naturalmente, produz substâncias como dopamina e serotonina. A ação dessas substâncias é simulada ou estimulada por drogas que causam vício – por exemplo, a cocaína atua em receptores da via mesolímbica, promovendo a liberação excessiva de dopamina e causando a sensação de prazer.

É importante notar que cocaína não é viciante per se – injetar altas doses de cocaína em uma planta não vai promover uma sensação de euforia nela. O que a droga faz é modular a liberação de substâncias que já existem no cérebro de humanos.

Talvez isso pareça uma distinção desnecessária, mas isso significa que a ‘potencialidade’ de adicção existe dentro de todos nós – uma vez que todos os humanos possuem um cérebro e um sistema de recompensa.

Contudo, o vício somente se expressa quando há um desbalanço desse sistema de recompensa – seja pelo uso de drogas, um acidente como o de John Cage ou possivelmente outras atividades.

É possível viciar em atividades, além do uso de drogas?

Atualmente, há uma série de atividades que as pessoas descrevem como vícios que não ocorrem através do uso de drogas – vício em açúcar, vício em fazer sexo e vício em jogar videogames são três exemplos. No entanto, estes ainda não são aceitos pela comunidade científica como vícios de fato.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, um livro lançado pela American Psychology Association (APA) a cada dez anos, busca compilar todas as informações de doenças mentais e estabelecer o consenso científico sobre transtornos mentais. Atualmente, o manual determina que existe apenas uma atividade viciante que não é causada por drogas – jogos caça-níqueis.

Por que caça-níqueis são a única exceção?

Desde sua criação no final do século XIX, máquinas caça-níqueis tornaram-se uma epidemia nos Estados Unidos e desde então espalharam-se pelo o mundo: hoje, os caça-níqueis dão mais lucros aos cassinos do que todos os outros jogos de apostas juntos.

Existem diversas táticas adotadas pelos cassinos que tornam esse jogo tão engajante:

  • estímulos visuais e sonoros meticulosamente feitos para manter e sustentar a atenção do jogador
  • ofertas de prêmios de milhões de dólares – que somente são possíveis porque as chances de ganhar são virtualmente insignificantes
  • quando o jogador perde, uma tela ‘quase vencedora’ é apresentada – dando a ilusão de que ele errou por muito pouco e o incentiva a continuar jogando

Essencialmente, todos os componentes e estrutura de jogos caça-níqueis foram construídos para manter a pessoa jogando o máximo de tempo possível e, consequentemente, maximizando o lucro dos cassinos.

O poder desse tipo de jogo gerou um grande impacto negativo na vida de cidadãos americanos – alguns chegaram a vender suas casas e carros para poderem continuar jogando. Como consequência, a comunidade científica passou a investigar, nas mais diversas áreas, os impactos que esses jogos tem na vida dos jogadores. Os resultados foram fortes o bastante para estabelecer um consenso de que jogos caça-níqueis são potencialmente adictivos, o que gerou sua proibição em muitos países.

Essa história completa é contada em ‘Addiction by Design’, um fantástico livro que conta o histórico dos jogos caça-níqueis e as estratégias usadas pelos cassinos para tornar o jogo mais atraente, ano após ano.

Segundo a autora, existem três aspectos dos caça-níqueis que os tornam particularmente atrativos.

  • Solidão – Os jogadores estão sozinhos em frente à máquina – isso é importante para aumentar a concentração do jogador na tela e sustentar sua atenção por mais tempo
  • Velocidade – Jogadores podem apostar 1200 vezes em uma hora, um número incrivelmente maior quando comparado com outros jogos, comopoker ou blackjack
  • Continuidade – Diferentemente de jogos físicos, o jogador em um caça-níqueis não precisa esperar a vez de outros jogadores ou que a corrida de cavalos termine para saber o resultado. No exato momento em que um jogo termina, outro pode começar instantaneamente.

Segundo pessoas viciadas em caça-níqueis, essa combinação de fatores gera uma sensação de que eles estão “separados do mundo”’ – uma espécie de transe, em que o mundo inteiro não importa e a única coisa que eles querem fazer é continuar jogando. Existem relatos de pessoas que passaram dias inteiros em frente aos caça-níqueis, sequer levantando para ir ao banheiro ou comer e eventualmente perdendo casa, carro e todo o dinheiro do banco.

Por que essa preocupação não é levada para outras atividades?

Apesar de a APA ainda não descrever outras atividades como viciantes, essa definição deve se ampliar nos próximos anos com o aumento de estudos nas áreas de vícios menos convencionais. Alguns estudos recentes já argumentam que sim, é possível ser viciado em comida, sexo e celulares.

Essa mudança de definição certamente ocorrerá porque não existe nenhuma característica exclusiva de máquinas caça-níqueis que as tornam viciantes. Os outros meios de entretenimento, inclusive, estudaram o que a indústria dos cassinos tinha a oferecer e implementaram diversas estratégias dos caça-níqueis em suas próprias indústrias.

O melhor exemplo? Apps de redes sociais, como Facebook, Instagram e Snapchat.

  • Assim como caça-níqueis, o celular promove a solidão: você não precisa interagir com outras pessoas, sua atenção fica totalmente engajada na tela do celular e pode ser sustentada por mais tempo
  • Assim como caça-níqueis, aplicativos possuem uma alta velocidade: a cada minuto, você provavelmente realiza dezenas de toques na tela ou entra em contato com centenas de posts.
  • Assim como caça-níqueis, aplicativos possuem continuidade: Assim que você termina de assistir a um vídeo ou ler um post, você pode ir para o próximo ou mudar de aplicativo em uma fração de segundos.

A diferença principal entre os caça-níqueis e o celular é que o usuário não está necessariamente gastando dinheiro ao mexer no seu celular.O modelo de negócios desses apps não é ganhar o dinheiro do usuário, mas sim fazer com que ele gaste o máximo de tempo possível na plataforma, para que uma quantidade maior de anúncios comprados por outras empresas possam ser mostrados em sua tela.

Conclusão

Se você achou a analogia entre jogos caça-níqueis e apps de redes sociais algo absurdo, eu peço que você reflita sobre o seguinte: nós vivemos na era da informação, em que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode aprender, virtualmente, o que quiser. Nesse contexto, não é óbvio que o tempo é o nosso recurso mais precioso?

Hoje, usuários utilizam o celular mais de quatro horas por dia. O uso constante do celular já é considerado uma das maiores causas de perda de produtividade em empregos. A atenção de alunos está cada vez mais dispersa e fragmentada – alguns não conseguem estudar continuamente por mais de cinco minutos sem mexer no celular.

Se esse padrão continuar a longo prazo, o uso desse tipo de ferramenta não poderá afetar o desenvolvimento da nossa sociedade?

Mesmo que o vício em tecnologia ainda não seja reconhecido oficialmente pela comunidade científica, isso deve ser apenas uma questão de tempo. Já é latente que o uso excessivo de aparelhos como celulares e tablets tem impactos sérios na saúde e produtividade de pessoas – principalmente crianças.

Eu não argumento que a tecnologia, em si, é ruim para o desenvolvimento da civilização humana, pelo contrário – a evolução tecnológica é inevitável e vai continuar ocorrendo cada vez mais rápido.

O que eu argumento é a necessidade , em uma época em que milhares de aplicativos e jogos são lançados todos os dias, de nós pensarmos  em como usar essas nas ferramentas – mensurar quais são os benefícios e malefícios para entender como nós vamos aprender e aplicar essas novas tecnologias no nosso cotidiano.

Por Vinícius Borges

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