Localizada no extremo oeste do estado de São Paulo, a região do Pontal do Paranapanema foi uma das últimas regiões do estado a ser desmatada, as florestas da região foram ocupadas e desmatadas nas décadas de 1960-1990, substituídas por grandes latifúndios. Por meio da pressão de movimentos sociais, muitas áreas foram expropriadas e transformadas em assentamentos para famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Hoje, os limites das propriedades de terra estão consolidados, sem conflitos, e os órgãos estaduais e federais focam na consolidação dos assentamentos rurais e da agricultura familiar na região. Todo este processo reduziu a cobertura florestal nativa na região para somente 18% da cobertura original – a maior parte concentrada em uma única floresta, o Parque Estadual Morro do Diabo – ameaçando espécies icônicas como o mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) e a onça pintada (Panthera onca) isolados nos poucas florestas restantes e cercados por agricultura e pastagens. Em longo prazo, este contexto favorece a extinção destas e outras espécies por estarem confinadas em habitats tão pequenos.

Cientistas trabalhando na região perceberam que recuperar a vegetação nativa para conectar as florestas restantes era crucial para preservar a biodiversidade do Pontal, mas estes corredores teriam que passar por assentamentos rurais e grandes fazendas. Como unir tantos interesses distintos e ainda arranjar espaço para os corredores?

Para isso, foi necessário entender os interesses dos diferentes grupos na região. Por um lado, as famílias nas pequenas posses dos assentamentos rurais careciam de alternativas para geração de renda, por outro, fazendeiros com propriedades maiores precisavam restaurar grandes áreas de florestas, de acordo com as demandas da legislação ambiental brasileira. Dessa forma, o projeto Corredores de Vida uniu as demandas dos dois grupos, capacitando os assentados para a produção de mudas de árvores nativas e recuperação de florestas. O projeto compraria as mudas e apoiaria o plantio tanto nos assentamentos quanto nas fazendas (com apoio dos fazendeiros) para conectar as florestas restantes.

Figura 1: Corredores ecológicos estabelecidos seis anos após o plantio de árvores nativas no Pontal do Paranapanema. Fonte: Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE)

Adicionalmente, o projeto também capacitou e financiou sistemas agroflorestais (cultivo que inclui espécies arbóreas da região com culturas agrícolas, como café) nos assentamentos rurais que, além de gerarem renda e alimento, também podem ser usados pelos animais da região para se mover entre as florestas.

Figura 2: Exemplo de sistema agroflorestal com árvores de espécies nativas (esquerda) e pés de café (direita).

Até agora, o projeto já recuperou 1,500 hectares de florestas para a criação de corredores ecológicos na região. Doze viveiros comunitários estão em operação, fornecendo anualmente milhares de mudas nativas para o projeto, e 50 famílias adotaram sistemas agroflorestais em suas propriedades e duas empresas de restauração ecológica são coordenadas por assentados rurais. As atividades do projeto continuam até hoje, com o envolvimento das comunidades rurais e centenas de hectares de florestas sendo plantados todo ano. Estas atividades não só conservam a biodiversidade e contribuem para enfrentar o aquecimento global como também geram renda e meios de produção mais sustentáveis para as comunidades envolvidas. O exemplo dos Corredores de Vida mostra que é possível atrelar os benefícios ecológicos, sociais e econômicos da restauração florestal para conservar a biodiversidade e gerar bem-estar humano.

 

 

por Ricardo Gomes César

Referências

Badari, C. G., Bernardini, L. E., Almeida, D. R. A., Brancalion, P. H. S., César, R. G., Gutierrez, V., … Viani, R. A. G. (2020). Ecological outcomes of agroforests and restoration 15 years after planting. Restoration Ecology, n/a(n/a). doi: 10.1111/rec.13171

Nascimento, A. T. A., Nali, C., Schmidlin, L., Marques, R., Rodeano, M., Padua, S. M., … Fonseca, G. A. B. d. (2016). Combining Econegotiations and Threat Reduction Assessments to estimate success of conservation: lessons learned in the black-faced lion tamarin conservation program. Natureza e Conservacao, 14(2), 57–66. doi: 10.1016/j.ncon.2016.06.001

Uezu, A., Beyer, D. D., & Metzger, J. P. (2008). Can agroforest woodlots work as stepping stones for birds in the Atlantic forest region? Biodiversity and Conservation, 17(8), 1907–1922. doi: 10.1007/s10531-008-9329-0

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