O que o vídeo dos cachorros reagindo ao desaparecimento de seus donos atrás de cobertores e as cenas de uma onça no pantanal, abocanhando um jacaré em pleno leito de um rio, têm em comum? Em ambos os casos, conseguem milhares de curtidas e compartilhamentos nas redes sociais. Em essência, as duas cenas retratam o comportamento animal, uma área fascinante, que atrai o interesse de pesquisadores e desperta a curiosidade de pessoas de todas as idades.

O comportamento é o conjunto de tudo que um animal faz e deixa de fazer, desde o ronronar agradável de um gatinho enquanto amassa pão no colo de um humano com cara de bobo até o avançar de um leão sobre um gnu, perpetuando o ciclo sem fim.

Algumas vezes, no entanto, os animais apresentam comportamentos que se distanciam do que seria considerado normal. Essas alterações podem ser em como quando um animal age ou reage de formas que não faria na natureza, ou no quanto um comportamento é expressado. Essa segunda alteração é geralmente associada ao termo comportamento estereotipado, que é aplicado a ações repetitivas e sem função aparente, bem exemplificados pelo andar em uma rota fixa apresentado por alguns felinos em cativeiro, chamado de pacing (veja o vídeo abaixo).

É importante observar que, embora a presença de comportamentos estereotipados possa ser um indicador de estresse, , uma vez que a estereotipia pode representar uma maneira do indivíduo lidar com as condições aversivas, ou seja, ao repetir um comportamento, entre outras possibilidades, o animal assume controle sobre seu ambiente, o que acaba resultando em melhor bem-estar, como explicam Mason e Lathan (2004). É essencial entender que o estudo do comportamento animal deve levar em consideração todo o contexto, bem como o conjunto dos outros comportamentos apresentados.

Entre os animais de estimação, algumas alterações comportamentais que inspiram cuidados estão relacionadas aos autocuidados, quando o animal se lambe ou se coça em excesso, ou, no caso das aves, como calopsitas, que podem apresentar um quadro de autobicamento, com o arrancamento de penas. Nesses casos, deve se investigar se há alguma razão que desencadeia essa prática, como parasitas, por exemplo. Descartadas as causas físicas da coceira, uma das formas de se minimizar os impactos negativos das alterações é oferecer ao bichinho possibilidades de expressar seus comportamentos naturais, o que chamamos de enriquecimento ambiental, oferecendo atividades que estimulem comportamentos naturais (veja o vídeo abaixo). Ao passar a desempenhar comportamentos naturais, o bem-estar animal tende a ser elevado, o que melhora sua qualidade de vida. Essa ideia vale para elefantes em um zoológico e para o cãozinho que abana o rabo quando você chega em casa, então, vamos lá!

 

Saiba mais sobre estereotipias e bem-estar animal aqui

 

por Dra. Liane Ferez

Uma das biólogas privilegiadas que pode dizer que já abraçou uma onça. Professora no curso de Ciências Biológicas (UDF), pesquisadora no Criadouro NEX-Noextinction, doutora em Ciências Animais na UnB e trabalhou no Jardim Zoológico de Brasília, onde atuou na Superintendência de Educação e Lazer e no Núcleo de Condicionamento Animal.

 

Referência:

Mason, G.M., Lathan, N.R. Can t stop, won t stop: is stereotypy a reliable animal welfare indicator? Animal Welfare. 13:57-69. (2004)

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