O Rompimento de uma barragem em Mariana, MG, no dia 5 de novembro chocou o Brasil. Ela pertencia a mineradora Samarco, 10ª maior exportadora do Brasil, que realiza extração de minério de ferro na região conhecida como quadrilátero ferrífero, justamente pela abundancia do minério na região. As causas que levaram ao rompimento da barragem ainda não foram esclarecidas.

Durante o acidente foram liberados cerca de 70 bilhões de litros rejeitos de minério de ferro, o que equivale a 24 mil piscinas olímpicas. Esses rejeitos cobriram e devastaram seis localidades de Mariana, além do subdistrito de Bento Rodrigues.

A lama se espalhou por mais de 500 km através da bacia do Rio Doce, a 5ª maior bacia hidrográfica brasileira. O desastre deixou 11 mortos, 12 desaparecidos e mais de 500 mil pessoas sem abastecimento de água.

Antes e depois do rompimento da barragem em Mariana

 

Mais imagens do antes e do depois do rompimento da barragem em Mariana – MG

Para compreender porque tanta lama tomou conta da cidade, precisamos compreender as etapas necessárias para a extração do minério de ferro. Primeiro ocorre a extração propriamente dita onde o minério, juntamente com solo, são retirados de rochas. Esse material retirado é composto por ferro, terra e outros minérios sem valor comercial. Ocorre uma separação bruta e o minério de ferro passa para etapa de britagem, onde são quebrados em pequenos fragmentos. Em seguida, este material passa por peneiras de diferentes espessuras, e é nesta fase de separação que ocorre a utilização de água – com a finalidade de facilitar o processo – retirando o solo ainda presente em meio ao metal. Parte desta água é reaproveitada após o processo, porém a água carregada de sedimentos fica armazenada em represas.

Desta forma, a barragem que se rompeu continha lama de resíduos desse processo. A mineradora afirma que não havia a presença de materiais tóxicos nas represas, não apresentando riscos diretos via contato ou ingestão de água à saúde humana. A empresa afirmou ainda que o rejeito presente na barragem é inerte, constituído principalmente por sílica (areia) e ferro. Um laudo oficial sobre a composição da lama deve ser divulgado no início de dezembro.

Mesmo que a toxidade da lama seja realmente baixa, ela contém altas concentrações de ferro e outros metais secundários descartados durante o processo – como alumínio e manganês – que em contato com o solo pode levar a uma alteração de seu pH, alterando completamente a microfauna da região.

Além disso, a lama tomou conta de toda a região, cobrindo tudo – casas, vegetação, áreas agricultáveis, rios, nascentes – causando um grande dano ambiental. Segundo o biólogo André Ruschi, diretor da escola Estação Biologia Marinha em Aracruz (ES), este pode ser considerado o maior desastre ambiental brasileiro. Ele afirma ainda que muitas espécies de animais e vegetais endêmicas da bacia do Rio Doce podem ser extintas com o desastre, principalmente por sua ocorrência durante o período de reprodução de muitas espécies de peixes, que não encontrarão condições para se reproduzirem.

Além disso, ao logo da bacia do Rio Doce, a lama barra a entrada de luz na água, o que impede a realização do processo de fotossíntese e que por sua vez, deixa de liberar oxigênio na água. A falta deste gás leva a morte de espécies aquáticas que necessitam dele para sua sobrevivência, como por exemplo os peixes, afetando assim toda a cadeia alimentar da bacia.

Essa lama também é pobre em matéria orgânica o que dificulta a recuperação e o crescimento de espécies vegetais. Além disso, quando ela começar a secar – o que vai levar alguns anos – formará uma espécie de capa impermeável sobre o solo, o que dificultará ainda mais a recuperação da região.

Esse rompimento já está gerando um impacto grande nos leitos dos rios atingidos direta e indiretamente pela lama. Os sedimentos arrastados acabam sendo depositados nos leitos dos rios, levando ao assoreamento e até mesmo a mudanças nos cursos de rios menores. Além disso, a lama derramada pode soterrar permanentemente nascentes de rios importantes, alterando o ciclo dos mesmos.

Uma avaliação completa sobre os compostos químicos é necessária para ter certeza de que os rejeitos que vazaram não apresentam metais pesados, uma vez que a presença desses metais demoram anos para serem notadas ao longo da cadeia trófica, na qual vão se acumulando lentamente. A contaminação de peixes, por exemplo, pode levar a uma contaminação em humanos, quando esses forem consumidos.

Segundo uma declaração do professor de geologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Cleuber Moraes Brito, acredita-se que trabalhos para a recuperação da área atingida levem de 5 a 10 anos para começarem a demonstrar resultados, mas que a região levará mais de 100 anos para reverter toda essa situação.

 

Por Jaqueline Almeida

jaqueline.raquel.almeida@usp.br

Referencias:

[1] Extração de minério de ferro – Vale. Disponível em: http://www.vale.com/PT/business/mining/iron-ore-pellets/Documents/carajas/index.html acesso em novembro de 2015.

[2]: Samarco Informa. Disponível em: http://www.samarco.com/ acesso em novembro de 2015.

[3]: Mesmo sem ser tóxica, lama de barragem em Mariana deve prejudicar ecossistema por anos: http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2015/11/mesmo-sem-ser-toxica-lama-de-barragem-em-mariana-deve-prejudicar-ecossistema-por-anos.html acesso em novembro de 2015

[4] Tragédia em Minas Gerais deve secar rios e criar ‘deserto de lama’ – Folha de São Paulo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/11/1706510-tragedia-em-minas-gerais-deve-secar-rios-e-criar-deserto-de-lama.shtml acesso em novembro de 2015.

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