A poluição da água é um assunto que nos acompanha desde os primeiros anos escolares: aprendemos que a água é um recurso indispensável à nossa vida, que dependemos dela para nossas atividades diárias e que o homem e as atividades antrópicas interferem na qualidade da água do nosso planeta. Apesar de sabermos disso tudo, parece que as atitudes humanas ainda são falhas e negligentes.

A poluição da água com resíduos industriais e da agricultura ainda é comum, levando pesticidas, herbicidas e metais pesados aos rios e mares; porém, pesquisas mostram que nossos hábitos de consumo também têm influenciado na qualidade das águas.

Alguns rios – cujas águas são captadas para consumo humano – estão contaminados com cafeína, crack, morfina, hormônios e outras drogas. Estudos na Inglaterra mostraram que, mesmo após o tratamento, a água que sai da estação de esgoto e chega aos rios ainda tem quantidades consideráveis de cocaína e outros medicamentos, desde os usados para uma simples dor de cabeça até os medicamentos para o tratamento de crises epiléticas.

William Duke. http://www.nytimes.com/2007/04/03/science/earth/03water.html
William Duke. http://www.nytimes.com/2007/04/03/science/earth/03water.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Isso mostra que essas substâncias chegam até a água que bebemos e isso é preocupante. Um estudo norte-americano mostrou que mais de 60% da população dos EUA toma algum tipo de medicamento todo dia, escancarando o quanto dependentes dessas substâncias somos e que esse tipo de poluição só tende a aumentar.

No Brasil, alguns estudos usam a presença ou não de cafeína como uma forma de monitoramento da água contaminada. Por ser quimicamente estável e relacionada unicamente ao consumo humano, a cafeína é um marcador para a qualidade de água.

Se pudéssemos monitorar o que é despejado a cada momento nos rios e corpos d’água, poderíamos saber em qual momento do dia as pessoas mais bebem café, por exemplo, ou quando tomam mais medicamento para dor, criando um perfil do consumo dessas substâncias em uma população.

O despejo de água contaminada ocorre porque os sistemas de tratamento de esgoto não são eficientes o suficiente para retirar da água esses contaminantes químicos, que acabam chegando aos rios e, por fim, aos mares. Muitas pesquisas tentam estabelecer novas formas de tratar o esgoto e evitar o despejo dessas substâncias na água, usando novas tecnologias, mas ainda há muito a ser feito.

Quais as consequências dessa poluição? Segundo as agências que monitoram a qualidade das águas, a quantidade dessas substâncias é muito pequena, e mesmo se ingerida ao longo de uma vida, é pouco provável que traga algum mal; porém, outras pesquisas precisam ser realizadas, acompanhando os casos por mais tempo. No começo dos anos 2000, por exemplo, algumas pesquisas apontaram a presença de hormônios (derivados de pílulas anticoncepcionais) na água de alguns lagos dos EUA; após mais de 10 anos, foi constatado que a maior parte dos machos em uma população de peixes de um desses lagos produzia óvulos (gametas femininos). Esse fenômeno de “duplo sexo”, de acordo com os pesquisadores, era resultado de desregulações hormonais causadas pelos hormônios presentes na água da lagoa. Não é momento de entrar em desespero, mas a luz amarela de “atenção e cuidado” deve ser acesa.

Tudo isso nos mostra como nossas ações – mesmo que pequenas, como tomar um café ou um medicamento para dor – influenciam o ambiente em que vivemos e, por consequência, a nossa vida. É hora de pensarmos e agirmos para proteger esse bem tão valioso que é a água!

Até a próxima,

Por Nathália de Moraes

nathalia.esalq.bio@gmail.com

 

Referências

[1] The Canadian Press. (2015). Study finds traces of cocaine, other illegal drugs in Ontario drinking water. Acessado de http://www.lfpress.com/2015/07/24/study-finds-traces-of-cocaine-other-illegal-drugs-in-ontario-drinking-water em abril de 2017

[2] Linden, R. et al. (2015). Caffeine as na indicator of human fecal contamination in the Sinos River: a preliminary study. Brazilian Journal of Biology, http://dx.doi.org/10.1590/1519-6984.0513

[3] Henley, J. (2014).
Traces of cocaine in our tap water don’t prove we have a problem. Acessado de https://www.theguardian.com/environment/shortcuts/2014/may/12/cocaine-water-supply-pharmaceutical-compounds-contaminants em abril de 2017.

[4] Rosenberg, M. (2016). Drugs in the Drinking Water? Don’t Ask and Officials Won’t Tell. Acessado de https://www.organicconsumers.org/essays/drugs-drinking-water-dont-ask-and-officials-wont-tell em abril de 2017.

[5] Fonte da imagem em destaque: http://www.arlington-tx.gov/news/2016/02/11/arlington-police-water-utilities-host-drug-take-back-event-april-30/

 

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