Fonoaudiologia no aprimoramento vocal de pessoas Trans

Já imaginou se você sentisse que sua voz não combina com a sua personalidade ou com a pessoa que você é? Já imaginou se você falasse com um pessoa na rua e ela te olhasse de maneira estranha depois de ouvir a sua voz, duvidando de quem você é?
Pois é assim que algumas pessoas Trans se sentem quando a voz delas não está como elas gostariam.

Uma pessoa trans é aquela que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento. Por exemplo uma mulher transexual foi designada como do gênero masculino ao nascer por ter o sexo biológico masculino, mas se identifica com o gênero feminino e em algum momento da sua vida começou a viver socialmente com o gênero com o qual ela se identifica, no caso o gênero feminino.

E por que a voz é tão importante para algumas pessoas Trans?

Nossa voz é ouvida e compartilhada com as outras pessoas em diferentes contextos sociais, e é através dela que nos comunicamos e nos conectamos com os outros e construímos diferentes tipos de relacionamento, expressamos nossas ideias, pensamentos, sentimentos, desejos, contamos e recontamos nossa própria história.
Além disso nossa voz é muito individual sendo uma expressão pessoal da nossa identidade. E por ser uma expressão pessoal, influencia na percepção do nosso gênero, quando ouvem a nossa voz e percebem se é uma voz feminina ou masculina.

Quando pensamos em expressão de gênero no comportamento humano pensamos em aspectos da nossa comunicação, verbal e não verbal, nossas roupas, os gestos que usamos, nosso modo de falar, nossa voz, tudo isso expressa o nosso gênero. Por exemplo ao ouvir a voz de alguém ao telefone, inconscientemente já imaginamos algumas características daquela pessoa: se é mulher ou homem, se é alta ou baixa, se é uma pessoa tranquila ou brava, se é educada ou não.
Algumas pessoas Trans sentem a necessidade de que a voz se ajuste à sua expressão de gênero, pois no processo de transição de gênero algumas pessoas buscam que suas características físicas e comportamentais estejam de acordo com o gênero com o qual se identificam, e a voz pode ser uma dessas características.

Dentre os diferentes motivos que levam a essa busca pelo ajuste da voz ao gênero, as questões referentes a estigma e discriminação social são as mais frequentes. Por vivermos em uma sociedade que ainda reproduz muito preconceito, a discriminação social é um fator que afeta diretamente a vida e a saúde das pessoas Trans. Então ser percebido como uma pessoa Trans em determinadas situações de comunicação, como em um restaurante ou em uma entrevista de emprego por exemplo podem ser momentos de constrangimento e/ou discriminação. Nesse contexto as pessoas Trans e com variabilidade de gênero que desejem, podem desenvolver as características vocais e padrões de comunicação verbal e não verbal que propiciem o conforto e segurança com sua identidade de gênero.
A fonoaudiologia é a ciência que estuda e (re)habilita a comunicação humana, logo a fonoterapia pode contribuir com o bem estar e a qualidade de vida de pessoas Trans que desejam algum tipo de modificação em suas vozes ou formas de falar e se comunicar.

As possibilidades terapêuticas de ajustes relacionados a voz e gênero dependem muito de outros tratamentos associados e dos objetivos de cada pessoa, mas em geral são: a cirurgia de laringe (realizadas por médicos cirurgiões da área de otorrinolaringologia), a hormonização (realizada por médicos endocrinologistas) e a terapia fonoaudiológica.

A terapia fonoaudiológica pode contribuir com o trabalho vocal em pessoas Trans que tenham ou não se submetido à hormonização ou à cirurgia de laringe. Inicialmente, o foco das mudanças relacionadas à voz, está em elevar a frequência da voz no caso das mulheres transesxuais (deixar a voz mais aguda, tida socialmente como uma voz feminina), e diminuir a frequência da voz no caso dos homens trans (deixar a voz mais grave, tida socialmente como voz masculina). Mas há outros elementos da voz e da fala que estão envolvidos na percepção de gênero como a respiração, a ressonância da voz (formato que damos ao som da nossa voz através das estruturas do nosso trato vocal) e a entonação da fala, uma vez que estas características apresentam diferenças entre mulheres e homens.

Importante ressaltar que a fonoterapia, nesse caso, pode ser aplicada nas três possibilidades:

  • As pessoas que fazem hormonização podem acompanhar os efeitos do tratamento hormonal na voz e realizar treinamento durante períodos de instabilidades da voz, visando maior conforto e segurança ao se comunicar e manutenção da saúde vocal.
  • Antes e após procedimento cirúrgico visando o treinamento do comportamento vocal, a prevenção de problemas a voz e complementar ao desenvolvimento dos demais aspectos relacionados à fala.
  • Assim como as pessoas que não fazem hormonização e nem pretendem fazer cirurgia mas podem trabalhar os aspectos vocais e comunicacionais com o auxílio da fonoterapia. O auxílio da fonoaudiologia nesse contexto pode contribuir para o conforto relacionado às funções vocais, diminuindo os possíveis problemas vocais e auxiliando no processo de transição vocal das pessoas Trans que sentirem essa necessidade.

Vale ressaltar que não são todas as pessoas Trans que sentem necessidade de modificações da voz ou de adequação com a expressão de gênero. Não podemos fazer generalizações, mas é importante conhecermos as diferentes possibilidades para aquelas que desejam as mudanças.

 

por Alana Dantas Barros
Fonoaudióloga CRFa 5-11282-4
Mestre em Saúde Coletiva – UnB
Doutoranda em Saúde Coletiva – UnB
alanadantasbarros@gmail.com

Referências
Barros, AD. A relação entre a voz e expressão de gênero: a percepção de pessoas transexuais. 2017. 84 f., il. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) —Universidade de Brasília, Brasília, 2017.
Hancock A.B; Colton, L; Douglas, F. Intonation and Gender Perception:
Applications for Transgender Speakers. Journal of Voice, Vol. 28, No. 2, 2014.
Lanz, L. O corpo da roupa: a pessoa transgênera entre a transgressão e a conformidade com as normas de gênero. Uma introdução aos estudos transgêneros. Curitiba: Transgente. 2015
WPATH. Normas de atenção à saúde das pessoas trans e com variabilidade de gênero. World Professional Association for Transgender Health (WPATH) – 2012.7ª versão.

 

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