Reservatório municipal de água de Iracemápolis antes e depois da restauração. 
(Fonte: Brancalion e colaboradores[1])


    Diariamente, ouvimos falar que os reservatórios de água do estado de São Paulo estão com níveis muito abaixo do normal. Existem cidades que já enfrentam até racionamento de água. É claro que a falta de chuvas anormal do último verão é um fator muito importante para isso, mas existe uma cidade no interior de São Paulo chamada Iracemápolis, muito próxima a Piracicaba e Rio Claro, que recebeu a mesma quantidade de chuvas e não tem risco de racionamento. Você deve estar se perguntando como isso é possível.

 
    No início da década de 1980, o reservatório de água de Iracemápolis estava com níveis baixos graças ao acúmulo de sedimentos em seu leito (assoreamento) causado pela erosão dos terrenos ao seu redor, que eram cobertos por plantações de cana-de-açúcar. Para resolver o problema, drenaram o reservatório e elevaram a altura da barragem. Além disso, para evitar futuros problemas similares, foi criado um cinturão de mata ao redor do reservatório (mata ciliar) para proteger as margens, o solo e as nascentes ali presentes. Este plantio de árvores em uma área degradada é chamado de restauração florestal.
 
    A restauração florestal é reconhecida por pesquisadores como uma das soluções para problemas ambientais relacionados tanto à biodiversidade como à proteção do solo e da água. Porém, o que a população em geral percebe como benefícios de restaurar matas? Um trabalho realizado no município de Iracemápolis (SP) mostrou algumas das respostas para essa pergunta.

    Aproximadamente 22 anos depois, uma pesquisa revelou o que os moradores de Iracemápolis percebem como benefícios da restauração da mata ao redor do reservatório de água municipal. O principal benefício indicado foi uma melhora na quantidade e na qualidade da água disponível. A maioria das pessoas (76%) lembra-se do período de grave escassez de água que ocorreu no passado e que não se repetiu depois da restauração da mata ao redor da represa. Muitos entrevistados (65%) afirmaram que poderiam até pagar impostos extras associados à conta de água, mas só se esse dinheiro fosse investido na restauração florestal no município. Dentre outros benefícios reconhecidos, destaca-se ter uma opção de local para recreação, já que a mata é visitada por pescadores, ciclistas e pessoas que gostam de fazer trilhas. Outros benefícios reconhecidos foram educacional (12%), com visitas de estudantes de diversos níveis de ensino; proteção da biodiversidade (12%); proteção do solo contra erosão (10%), entre outros.
 
 
Reservatório municipal de água de Iracemápolis
 em maio de 2014.
 
    É importante conhecer melhor quais desses benefícios são reconhecidos pela sociedade, pois isso pode ajudar a convencer tomadores de decisão da importância da restauração florestal. Esse conhecimento também pode ser útil para pesquisadores e entidades de proteção ao meio ambiente que desejam obter recursos para futuros projetos. Além disso, compreender essa percepção da população local é muito importante para o desenvolvimento e a implementação de novos projetos de lei, de modo que os problemas ambientais sejam sanados, sem deixar de atender as necessidades da sociedade.

    Agora conhecemos melhor a importância de se restaurar florestas. Na minha próxima matéria, falarei um pouco sobre como usamos informações genéticas para ajudar na restauração florestal.

Por Patricia Sanae Sujii
sujiips@gmail.com


Referência: 

[1] Brancalion PHS, Cardozo IV, Camatta A, Aronson J, Rodrigues RR. 2014. Cultural Ecosystem Services and Popular Perceptions of the Benefits of an Ecological Restoration Project
in the Brazilian Atlantic Forest. Restoration Ecology, 22(1): 65–71.

One Reply to “Florestas são importantes “apenas” para evitar racionamento?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.