Você já teve algum sonho em outra língua? Ou então você já se pegou simplesmente pensando em um idioma que não fosse a sua língua materna? Kate Hammer, uma pesquisadora da Universidade de Londres, estudou o uso do inglês por imigrantes poloneses (cuja língua materna era apenas o polonês) e teve alguns resultados interessantes!

Especificamente, essa cientista queria entender quanto inglês esses imigrantes usavam em quatro domínios cognitivos diferentes: fazer listas de compras, tomar notas, elaborar planos de ação e fazer cálculos mentais. Além disso, ela buscou descobrir se esses usos estavam relacionados ao nível de aculturação dessas pessoas – que, grosso modo, é o nível de ajustamento psicológico e comportamental de um imigrante à nova cultura – à sua rede social (quanto eles usavam inglês ou polonês com seus conhecidos e amigos) e à sua perspectiva de morar ou não por mais tempo no novo país.

Para isso, os participantes responderam questionários e participaram de entrevistas sobre as suas situações linguísticas, sociais e psicológicas. O que Hammer descobriu foi que os domínios cognitivos onde as pessoas usavam mais inglês eram a tomada de notas, listas de compras e planos de ação, e que elas usavam a segunda língua bem menos para cálculos mentais.

Além disso, ela observou um padrão talvez não muito surpreendente: quanto mais aculturadas (adaptadas à cultura nova) as pessoas estavam, mais inglês elas falavam com seus conhecidos e, quanto mais elas planejavam continuar morando naquele país, mais inglês elas usavam nas diferentes tarefas cognitivas. O curioso, porém, é que, nessas condições, as pessoas também usavam mais e mais inglês para cálculos mentais.

Por que será que isso acontece? Hammer argumenta que a língua participa da nossa estruturação cognitiva, o que ajuda a construir a rede de conhecimento na nossa mente. Isso significa, então, que a língua está por trás de inúmeros processos cognitivos, como raciocínio, percepção e, claro, os quatro domínios estudados pela cientista.

Essa situação é especialmente interessante de se ver em pessoas bilíngues, já que, de acordo com algumas teorias, pessoas bilíngues tendem a usar cada uma de suas línguas para assuntos e tarefas específicas na sua vida. Algumas dessas tarefas dependem mais do contexto onde o indivíduo está. Por exemplo, há pesquisas que mostram que, em atividades como escrever uma lista de compras para o mercado, a língua que a pessoa escolhe usar está fortemente ligada ao seu contexto – pessoas russas na Alemanha frequentemente escrevem essas listas em alemão, e não em russo.

Outras atividades, por outro lado, não dependem tanto do contexto, mas são mais ligadas a uma língua específica. Um exemplo importante disso é o conhecimento de matemática. Cálculos mentais tendem a ser feitos na língua materna (ou na língua de instrução) do indivíduo – e dessa forma eles são muito mais precisos e rápidos do que se estivessem usando uma segunda língua.

Foi exatamente esse padrão que nós encontramos no estudo de Hammer! O que é surpreendente é que até mesmo um domínio como cálculo mental pode mudar e acabar sendo realizado na segunda língua. Ou seja, mesmo sem nos dar conta, nós estamos sempre num processo dinâmico, renomeando o mundo à nossa volta e nos adaptando a ele. A mente humana não é incrível!?

 Por Thomaz Offrede

tom.offrede@gmail.com

Referência

Hammer, K. (2018). L1 + L2 to the power of culture: acculturation and language use for cognitive domains in bilinguals. Language and Cognition, pp. 1-32.

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