Humanos têm usado pigmentos e corantes* há, pelo menos, 30 mil anos. Usamos para marcar territórios, comunicar ideias, expressar sentimentos,… E mesmo depois de tantos anos, continuamos investindo tempo, energia, dinheiro e outros recursos para descobrir e criar novos compostos para colorir o mundo. Conheça nesta série de textos um pouco de como estamos expandindo nosso repertório de pigmentos e corantes e a história da Ellie Irons, uma artista que usa plantas daninhas para criar uma paleta vibrante de aquarelas. 

Primeiros pigmentos

Os primeiros pigmentos de que temos notícia foram o preto vindo do carvão e o ocre vermelho da argila com o de óxido de ferro. Eles foram usados, por exemplo, para pintar imagens de animais e pessoas nas paredes da caverna de Chauvet-Pont-d’Arc, na França, há pelo menos 30 mil anos. Ao longos dos séculos seguintes, outras cores começaram a aparecer em pinturas rupestres, como o amarelo ocre, que vinha de minérios de ferro como a goethita. Essas pinturas não eram exclusividade européia. Registros de pinturas em cavernas podem ser encontrados em todos os continentes.

Arte rupestre na caverna de Chauvet-Pont-d’Arc, na França. Fonte: http://unesco.sorbonneonu.fr/la-protection-des-sites-prehistoriques-francais-par-lunesco/

Primeiros corantes

Temos registros de corantes desde o Egito antigo, há aproximadamente 5 mil anos. Diferente dos pigmentos, que são insolúveis, opacos e recobrem a superfície, os corantes são solúveis e não proporcionam cobertura à superfície corada, mantendo a transparência do objeto tingido. Esses corantes eram comumente extraídos de diversos seres vivos, incluindo plantas, liquens, insetos. Um dos vermelhos, hoje conhecido como carmim ou crimson, é até hoje extraído de Coccus ilicis, uma espécie de cochonilha e são necessário 150 mil insetos para obter 1 kg de corante. A cor azul, que é rara na natureza, foi encontrada em uma túnica de Tutankhamun (1823 AC), provavelmente extraída de uma planta conhecida como pastel-dos-tintureiros e é extraída de espécies de índigo na Ásia há mais de 2 mil anos.

Bonitos, mas nem sempre seguros

Ao longo da história, povos do mundo todo descobriram novas fontes de pigmentos e corantes e novas formas de extraí-las. Um desses corantes é o vermelho extraído do pau-brasil, infelizmente, hiper-explorado pelos portugueses e que deu o nome do nosso país. Alguns desses compostos, apesar de muito bonitos, são muito perigosos. O verde de Scheele, usado na Era Vitoriana, quando umedecido estimula o crescimento de mofo que libera arsênico, o que pode ter contribuído para morte de Napoleão. Ele foi substituído pelo verde de Schweinfurt, que é mais brilhante e permanente, porém, também é tão venenoso que foi usado como veneno para ratos em Paris. Esse pigmento foi bastante usado por Cezanne, Monet e van Gogh e pode ter contribuído para saúde debilitada dos três. 

Os sintéticos

O primeiro corante sintético foi criado em 1856 pelo aspirante a químico William Henry Perkin, que tinha apenas 18 anos. Ele estava tentando sintetizar moléculas de quinino, utilizado para tratar malária. Em meio aos testes, ele acabou criando uma molécula parecida batizada de malva, que quando é diluída em álcool é capaz de corar seda de um roxo brilhante. No processo, ele foi demitido do laboratório onde trabalhava, continuou sua pesquisa em seu quarto e, depois de patentear sua descoberta, ficou rico. 

Nos últimos 150 anos, a indústria de corantes e pigmentos cresceu e gerou uma infinidade de compostos sintéticos usados para colorir os mais diferentes tipos de materiais, de plástico a alimentos. Compostos naturais também continuam a ser descobertos e extraídos de animais, plantas, microrganismos e fontes inorgânicas.  

Fonte inusitada

A artista Ellie Irons olha para os terrenos baldios de Nova Iorque e vê uma fonte de matéria prima para suas aquarelas onde a maioria das pessoas enxerga apenas ervas daninhas. A maior parte das plantas que ela usa para extrair seus pigmentos são espécies invasoras, algumas bastante agressivas que podem competir com espécies nativas. Ellie começou suas experiências de extração de pigmentos com algas de um verde vibrante que cresciam na jardineira em seu estúdio. Ela usa uma técnica tradicional de produção das tintas, criada no século XVIII, em que se mistura o pigmento a água, mel e goma arábica. 

Em parceria com pesquisadores, ela também explorou pigmentos de plantas de áreas de mata nativa e tem defendido que plantas classificadas como ervas daninhas invasoras podem servir de matéria prima, prestando o que chamamos de serviço ecossistêmico. Essas espécies continuam sendo uma ameaça para espécies nativas, mas Ellie defende que em algumas situações essas plantas são inofensivas e que podem tem algum lado bom. 

Foto de algumas das partes das plantas usadas por Ellie Irons para produção de tintas. Fonte: https://www.pnas.org/content/115/4/627

No próximo texto, venha conhecer pigmentos produzidos a partir de microrganismos e suas aplicações para indústrias de alimentos, farmacêutica e mais. 

por Patricia Sujii

sujiips@gmail.com

Referências: 

Abel, A. (2012). The history of dyes and pigments: From natural dyes to high performance pigments. In Colour design (pp. 557-587). Woodhead Publishing.

Beans, C. (2018). Science and Culture: Painting with invasive pigments. Proceedings of the National Academy of Sciences, 115(4), 627-629.

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