O que nos faz humanos? A resposta em que você pensou é “nossa capacidade de falar línguas”? Talvez você precise repensar essa ideia! Cientistas descobriram que outros animais (ou pelo menos alguns deles) também são capazes de aprender símbolos.

O estudioso Charles Peirce (EUA, 1839 – 1914) diz que toda comunicação acontece por meio de três elementos, que são interdependentes, mas separados: objeto, signo e efeito no interpretador (a pessoa que interpreta o signo). Assim, o significado de uma mensagem acontece quando um signo comunica um objeto ao interpretador.

O signo, por sua vez, pode ser de três tipos: ícone, índice e símbolo. O ícone representa seu objeto por causa de uma similaridade com esse objeto. Um exemplo é um mapa – ele representa um lugar porque se parece fisicamente com ele. O índice, por sua vez, representa um objeto por causa de uma contiguidade física e espaço-temporal entre ele e o objeto. É o caso de uma nuvem escura, que indica que vai chover.

Por último, o símbolo representa um objeto puramente por uma convenção que foi determinada. A letra escrita B, por exemplo, representa o som /b/ apenas porque foi decidido que seria assim.

Muitas pessoas acreditam que os humanos são os únicos animais capazes de produzir símbolos. Porém, muitas pesquisas indicam que esta ideia contradiz evidências que temos sobre o comportamento animal e a evolução.

Um caso interessante é o do macaco-vervet (Cercopithecus aethiops), que mora em uma parte do continente africano. Essa espécie possui um repertório sofisticado de vocalizações que servem como alarmes para avisar aos outros membros do grupo que há predadores por perto. Esses macacos têm três tipos principais de chamados: um para predadores terrestres, como leopardos; um para predadores aéreos, como gaviões; e um para predadores que rastejam, como cobras. Quando os macacos adultos ouvem um desses alarmes, o grupo inteiro tenta escapar de acordo com o tipo do predador presente. Se o predador for uma cobra, por exemplo, o grupo vai subir em árvores para fugir.

Macaco-vervet em cima de uma árvore
Macaco-vervet em cima de uma árvore

Os adultos sabem usar esses alarmes perfeitamente, mas macacos mais jovens às vezes os usam para objetos inanimados e animais que não são perigosos (ou seja, inadequadamente). Isso quer dizer que os chamados têm de ser aprendidos bem antes de serem usados adequadamente. Na verdade, os adultos nem prestam atenção quando os bebês balbuciam esses sons.

Cientistas brasileiros modelaram um cérebro artificial para simular o processo de aprendizado desses chamados de alarme dos macacos-vervet. Eles observaram que macacos adultos, quando ouviam o chamado, tentavam escapar, até mesmo quando não havia nenhum predador por perto!

Se esses macacos respondessem ao chamado porque viram o predador ao mesmo tempo do alarme, diríamos que o signo (o alarme) é apenas um índice, necessitando de uma associação sensorial entre ele e o predador. No entanto, como a resposta ao chamado aconteceu até mesmo sem a presença de um predador (isto é, sem a presença do objeto que o signo representa), então aconteceu um processo simbólico. Nesse processo, o objeto do signo (o predador) não é mesmo um objeto, mas, sim, uma classe de objetos, então ele não precisa existir no mundo como uma única entidade real para os macacos responderem a ele.

Os resultados dessa pesquisa demonstram que símbolos podem evoluir numa espécie que tenha capacidades sensoriais e motoras e que consiga aprender por associação. Isso quer dizer que muitas espécies, além dos humanos, podem aprender símbolos: diferentes tipos de macacos, golfinhos, cachorros e pássaros (dentre outros) entram nessa categoria.

A comunicação de animais não-humanos não é sempre tão simples como se costuma pensar. Na verdade, é preciso que a gente reveja a ideia de que apenas os humanos têm linguagem. Talvez nós todos não sejamos tão diferentes, no fim das contas.

 

Thomaz Offrede

tom.offrede@gmail.com

Referência

Ribeiro, S.; Loula, A.; Araújo, I.; Gudwin, R.; Queiroz, J. (2007). Symbols are not uniquely human. BioSystems 90, pp. 263-272.ímo

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