Doenças raras costumam ter poucas opções de tratamento. Por serem raras, é mas difícil para os pesquisadores conhecerem os sintomas característicos, pode ser mais complicado chegar a um diagnóstico preciso, existem poucas pessoas que podem participar dos testes clínicos e ainda pode existir menos investimento para pesquisa. Felizmente, para adrenoleucodistrofia, apesar de ser rara, existem vários grupos de pesquisadores trabalhando tanto para entender melhor a doença como para buscar tratamentos.

A maioria das pessoas nunca ouviu falar de adrenoleucodistrofia (ALD), mas provavelmente você já assistiu ao filme “Óleo de Lorenzo” (veja o trailer aqui ). Se não assistiu, recomendo para lista da quarentena, mas já prepara um lencinho. O filme é um drama baseado em fatos reais, lançado em 1992, que mostra a história do menino Lorenzo (que tem ALD) e de seus pais, que tentam encontrar um tratamento para seu filho.

A ALD é uma doença genética rara, neurodegenerativa, que afeta uma a cada 20 mil pessoas no mundo. O gene associado a essa doença tem uma função relacionada à manutenção da integridade dos neurônios, por isso, a criança com ALD tem uma perda progressiva das capacidades comportamentais, cognitivas e neurológicas. Os sintomas começam a aparecer na infância, normalmente entre dois e dez anos de idade e têm um desenvolvimento rápido, com perda total das capacidades três anos após seu início. Existem casos mais brandos dessa doença, em que os sintomas são menos severos e aparecem mais tarde, mas os cientistas ainda não compreendem muito bem o que define a gravidade da doença.

Essa é uma doença mais comum em meninos do que em meninas, porque o gene responsável pela doença está presente no cromossomo X. Como meninas têm duas cópias desse cromossomo (XX) e meninos têm apenas uma cópia do X (XY), meninas têm duas chances de herdar pelo menos uma cópia do gene normal, enquanto meninos têm apenas uma chance.

O diagnóstico pode ser feito com base em testes de plasma sanguíneo e testes de DNA. Quanto mais cedo é feito o diagnóstico, melhores são os efeitos dos tratamentos. Como foi bem demonstrado no filme “Óleo de Lorenzo”, os tratamentos para ALD foram desenvolvidos recentemente. Por algum tempo, pessoas com ALD foram tratadas com a ingestão de uma combinação de óleos, mas esse tratamento não funciona para todos os pacientes e não impede o desenvolvimento da doença, apenas retarda os sintomas. Uma alternativa mais eficaz é o transplante de medula, mas encontrar um doador compatível é um desafio. Além disso, existem os riscos de rejeição e de outros efeitos colaterais do transplante.

Em outubro de 2017, um grupo de pesquisadores de diversas instituições de pesquisa e hospitais espalhados pelo mundo publicou um estudo com boas notícias. Eles desenvolveram um procedimento que permite diminuir muito a velocidade de desenvolvimento da doença e pode até ser uma possível cura. Esse procedimento usa terapia gênica, em que células do paciente são retiradas do corpo e modificadas geneticamente, deixando de ter o defeito genético. Em outras palavras, os cientistas corrigem a mutação dessas células. Após o procedimento, as células modificadas são devolvidas ao organismo do paciente, onde começam a funcionar corretamente, impedindo o desenvolvimento da doença. Os cientistas fizeram os testes com um grupo pequeno e tiveram resultados promissores. Dos 17 pacientes testados, 14 se mantiveram sem piora nos sintomas após dois anos de acompanhamento.

Na imagem abaixo, é possível ver uma comparação entre cérebros de duas crianças. As imagens de cima mostram o cérebro de uma criança que não passou pelo tratamento, enquanto as fotos de beixo mostram o cérebro de outra criança, que passou pelo tratamento. As setas nas imagens de cima apontam uma área do cérebro que sofreu degeneração. Veja que nas fotos de baixo essa região do cérebro não sofre alteração.

Imagens de cérebros de crianças com ALD. Fonte: http://www.scielo.br/pdf/anp/v74n12/0004-282X-anp-74-12-0953.pdf

Infelizmente, esse procedimento não funciona para pacientes com sintomas avançados, sendo essencial que a doença seja diagnosticada cedo. Também são necessários estudos com grupos maiores de pacientes e avaliação de efeitos a longo prazo antes de disponibilizar o tratamento em hospitais pelo mundo. Vamos aguardar novas publicações de estudos, torcendo por mais resultados positivos!

O desenvolvimento de novas tecnologias e um conhecimento mais detalhado das doenças têm permitido que pesquisadores desenvolvam terapias inovadoras, que têm trazido esperança para pacientes de doenças raras e seus familiares. Continue acompanhando as matérias deste mês para conhecer um pouco mais sobre doenças raras e como a ciência pode contribuir para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

por Patricia S. Sujii

sujiips@gmail.com

 

Referências:

https://ghr.nlm.nih.gov/condition/x-linked-adrenoleukodystrophy

Eichler, F., Duncan, C., Musolino, P. L., Orchard, P. J., De Oliveira, S., Thrasher, A. J., … & Raymond, G. V. (2017). Hematopoietic stem-cell gene therapy for cerebral adrenoleukodystrophy. New England Journal of Medicine, 377(17), 1630-1638.

Furlan, F. L. S., Lemes, M. A., Suguimatsu, L. C. F., Pires, C. T. F., & Santos, M. L. S. F. (2019). X-linked adrenoleukodystrophy in brazil: a case series. Revista Paulista de Pediatria, (AHEAD).

Moser, H. W., Mahmood, A., & Raymond, G. V. (2007). X-linked adrenoleukodystrophy. Nature Clinical Practice Neurology, 3(3), 140-151.

Saute, J. A. M., Souza, C. F. M. D., Poswar, F. D. O., Donis, K. C., Campos, L. G., Deyl, A. V. S., … & Saraiva-Pereira, M. L. (2016). Neurological outcomes after hematopoietic stem cell transplantation for cerebral X-linked adrenoleukodystrophy, late onset metachromatic leukodystrophy and Hurler syndrome. Arquivos de neuro-psiquiatria, 74(12), 953-966.

Imagem de capa: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Adrenoleukodystrophy.jpg

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