A última parte da história sobre a origem do português e de seus parentes. Da última vez, vimos que a língua portuguesa faz parte de uma grande família, com várias línguas similares. Para terminar, temos uma última pergunta: E de onde vieram todas essas línguas?

E de onde vieram essas línguas?

Ótimo, descobrimos então que latim (que originou o português) é parente do sânscrito. E do grego. E do gótico. E do celta. Mas de onde vieram essas línguas?

Infelizmente, a gente chegou num ponto em que é preciso lidar com um pequeno problema. Diferente dos biólogos, que podem consultar os fósseis para conhecer os nossos antepassados de dezenas de milênios atrás, os linguistas não têm como ir tão longe porque, infelizmente, nossos antepassados não tinham gravadores e fitas cassete disponíveis. A escrita é muito recente na história da humanidade, e a maior parte dos idiomas é só oral.

Mas, isso não quer dizer que a única solução é jogar as mãos para o alto e desistir. A gente viu até aqui que as línguas mudam de pouco em pouco e que, quando as línguas possuem gramáticas e vocabulários muito parecidos, então é razoável supor que elas têm uma origem comum (afinal, sempre que vimos duas línguas muito parecidas, foi porque elas compartilhavam uma língua ancestral).

Então, podemos chegar assim ao avô da língua portuguesa – o Proto-Indo-Europeu (vulgo “Pie”).

É difícil dizer quem exatamente falava Pie (não tinha escrita ou gravações, lembra?), mas supõe-se que a língua era falada entre 7000 a 4000 anos AC, ou no sul da Rússia, ou na Turquia – algo tão vago quanto dizer que Maomé nasceu ou em 570 em Meca, ou em 1180 AC no Rio de Janeiro (se você estiver na dúvida, na época não existiam cariocas).

Também é difícil dizer como eram as palavras em Pie, pelo mesmo motivo. Por isso, quando escrevemos as palavras em Pie, colocamos um asterisco antes para dizer que é o que imaginamos ter sido a pronúncia daquela palavra. Um exemplo é a palavra Pie para “eu”, *éǵh. Viu o asterisco ali? É porque ninguém pode bater o martelo e dizer que a pronúncia dessa palavra era exatamente essa, mas dá para imaginar que era alguma coisa parecida. As línguas, como eu disse antes, mudam de pouquinho em pouquinho, e pegando as palavras usadas hoje, dá para ter uma ideia de como ela devia ter sido antigamente. No caso, “egh” parece ter virado “es” tanto em letão quanto em armênio (duas línguas razoavelmente separadas uma da outra). Em grego antigo era “egṓ” e em latim “ego”. Em africâner virou “ek” e em holandês, “ik”.   Um pouco parecido, não?

O que a gente consegue dizer com mais certeza é quais são as línguas que surgiram do Pie. Dentre as principais (da mais distante para a mais próxima de nós) estão o antepassado de algumas línguas indianas (como o hindi), o antepassado das línguas iranianas, o antepassado das línguas eslavas e bálticas, o antepassado das línguas celtas (como o irlandês e o galês), o antepassado das línguas germânicas, e o antepassado das línguas itálicas (faladas na península italiana). Lembra do latim? Pois é, ele era uma das línguas itálicas.

Voltando às contas. Lembra que o português já tinha 43 línguas irmãs? E se contarmos as línguas primas? Imagina que histórias como as do latim se repetiram em diversos lugares do mundo, e várias línguas antigas deram origem a mais outras línguas. Na conta total dá 444 parentes! São quase três bilhões de falantes nativos, o que quer dizer que se você pegar uma pessoa aleatoriamente na Terra, a probabilidade de ela falar uma língua parente do português não é muito diferente de você jogar uma moeda para cima e dar coroa. Coroa que, por sua vez, vem do latim corona e… bom, aí já é outra história.

por Marcus TANAKA DE LIRA (LET/UnB)

Onde posso ler mais sobre isso?

Só sobre línguas Indo-Europeias:

 

CLACKSON, James. Indo-European Linguistics: An Introduction. Cambridge University Press, 2007

SZEMERÉNYI, Oswald. Introduction to Indo-European Linguistics (Oxford Linguistics). Oxford University Press, 1999

 

Sobre linguística histórica:

 

CROWLEY, Terry; BOWERN, Claire. An Introduction to Historical Linguistics. Oxford University Press, 2010

 

 

 

 

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