Costumamos nos esquecer de que dormir bem tem um papel significante na nossa saúde, podendo ser talvez considerado mais importante até do que termos uma alimentação balanceada. Para termos uma ideia, Mahatma Gandhi, com o propósito de apoiar uma campanha não violenta de independência da Índia, sobreviveu 21 dias sem comer, ingerindo apenas goles de água e estudos demonstraram que somos capazes de permanecer até 40 dias sem comer. Porém, quando falamos sobre dormir, a situação é diferente. Um estudo dos anos 80 que foi repetido nos anos 2000, mostrou que ratos com privação total de sono, sobreviveram em média apenas 15 dias. Antes de morrerem, eles apresentavam uma aparência debilitada, com lesões nas caudas e patas e perda de peso, apesar de estarem se alimentando mais. Não houve uma falha na absorção de nutrientes, mas sim um acelerado gasto de energia juntamente com desidratação (1). Nesse texto vamos falar sobre doenças associadas à falta de sono.

Para manter nosso metabolismo funcionando adequadamente, é necessário dormir por tempo suficiente todos os dias, o que para adultos é atingido após 7-9 horas de sono (2). Muitos estudos já demonstraram que quando isso não é possível, aumentamos as chances de termos problemas metabólicos. Quando dormimos pouco, temos uma diminuição da atividade do lobo frontal, o qual controla a tomada de decisões, e aumenta a atividade da amígdala, que está associada a sensação de perigo. Assim, é mais possível comermos um brigadeiro fora de hora quando dormimos pouco na noite anterior, já que combinamos um medo de sentir fome com uma tomada de decisão ruim. A falta de sono também leva ao aumento de testosterona e cortisol, o que resulta em um aumento dos níveis de insulina e glicose no nosso corpo, podendo levar ao desenvolvimento de doenças como obesidade e diabetes (3). Além disso, um estudo mais recente descobriu que a cada hora a mais ou a menos que dormimos de uma noite para outra, podemos aumentar até 27% a chance de ter doenças relacionadas ao metabolismo, como obesidade, colesterol alto e hipertensão (4).

O sono é fundamental para termos uma limpeza no nosso cérebro. Estudos mostram que durante o sono o cérebro é capaz de remover seu lixo a partir do descarte de células mortas e moléculas das proteínas beta-amiloide e tau, as quais em excesso podem afetar conexões entre neurônios e causar doenças associadas à perda de memória, como Alzheimer e demência. Esse processo ocorre na fase de sono profundo não-REM, já que é nessa fase em que o sistema glinfático, o qual é dirigido por células cerebrais chamadas células gliais, é mais ativo. Esse sistema funciona como uma série de tubos que drena dejetos e compostos em excesso e também facilita a distribuição de compostos como aminoácidos, glicose e neuromoduladores no nosso cérebro. Uma curiosidade interessante, é que durante o sono, as células do cérebro reduzem de tamanho, permitindo que o lixo seja removido mais eficientemente (5). 

Dessa forma, podemos perceber que em todas as noites nosso cérebro precisa do sono para ter uma manutenção adequada, e assim permitir que nosso corpo esteja funcionando corretamente. Além de tempo suficiente de sono, a constância da quantidade de sono também é importante para cuidarmos da nossa saúde. Na próxima semana vamos falar sobre os efeitos da pandemia no nosso sono. Até lá!

Por Bianca Ribeiro

Referências: 

 (1) Everson CA, Bergmann BM, Rechtschaffen A. Sleep deprivation in the rat: III. Total sleep deprivation. Sleep. 1989 Feb;12(1):13-21. doi: 10.1093/sleep/12.1.13. PMID: 2928622.

(2) https://www.sleepfoundation.org/how-sleep-works/how-much-sleep-do-we-really-need Acessado em 9 de novembro de 2021.

(3) https://bostonheartdiagnostics.com/news/sleep-deprivation-and-its-link-to-obesity-and-metabolic-disorders/ Acessado em 9 de novembro de 2021.

(4) NIH/National Heart, Lung and Blood Institute. (2019, June 5). Irregular sleep patterns linked to metabolic disorders: Obesity, diabetes, high cholesterol more prevalent among irregular sleepers. ScienceDaily. Retrieved November 10, 2021 from www.sciencedaily.com/releases/2019/06/190605133514.htm

(5) https://www.urmc.rochester.edu/news/story/not-all-sleep-is-equal-when-it-comes-to-cleaning-the-brain Acessado em 9 de novembro de 2021.

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