“Terapia apropriada para um paciente adequado no momento correto” é um slogan muito atrativo que promete revolucionar a medicina! Tratamentos personalizados, mais eficazes, com menos efeitos colaterais são as promessas das chamadas medicina personalizada e medicina de precisão!

Tratamentos para doenças já foram baseados em religião e em mitos, mas com uma melhor compreensão de como o corpo é formado, por meio de estudos de anatomia, e como ele funciona, por meio da fisiologia, a medicina tornou-se mais objetiva. A busca pela compreensão das doenças e por modos mais eficazes para tratá-las, avança continuamente e beneficia-se do avanço de novas tecnologias. A medicina personalizada surgiu nesse contexto. Ela é um sistema de tratamento médico que utiliza informações genéticas e outras informações individuais do paciente para ajudar na seleção do tratamento mais apropriado para aquela pessoa.

Esse tipo de abordagem para tratamento de doenças só é possível porque as tecnologias de identificação das sequências de DNA de uma pessoa estão tornando-se mais acessíveis – são realizadas em menor tempo e custam menos. O sequenciamento do primeiro genoma humano custou bilhões de dólares e demorou mais de uma década para ser finalizado. Hoje é possível sequenciar o genoma de uma pessoa em algumas horas, com poucas centenas de dólares.

O estudo e os tratamentos do câncer já foram baseados unicamente na morfologia dos tumores. Hoje os médicos já sabem que o câncer é causado por um conjunto de alterações no DNA, as mutações e que cada câncer pode ter seu conjunto de mutações. Dependendo de quais são as mutações que levam à doença daquele paciente, existe um tratamento mais eficaz. Então, se pudermos identificar quais são as mutações específicas de cada conjunto de células de câncer, é possível desenvolver tratamentos personalizados, mais eficazes e com menos efeitos colaterais. Já foram identificadas dezenas de mutações associadas ao câncer e diversos projetos continuam a busca por mais mutações. Um exemplo dessa busca é o projeto 100 mil genomas (veja mais sobre o projeto aqui: https://loja.grupoa.com.br/revista-bmj/artigo/9928/genomas-de-100000-pessoas-serao-publicados-em-site-de-livre-acesso.aspx).

Existem plataformas de identificação de alterações genéticas que levam ao câncer e que já são utilizadas hoje. Uma dessas plataformas é chamada FoundationOne que tem em seu repositório mais de 300 alterações associadas aos cânceres de mama, do endométrio uterino, do estômago, dos pulmões, entre outros. Ao identificar qual é a alteração genética, os médicos compreendem o que faz as células daquele paciente se comportarem de forma aberrante e podem usar um fármaco mais preciso para matar essas células tumorais.

A medicina personalizada, apesar de ser possível, ainda é muito cara. Então, uma alternativa para conseguirmos prevenir e tratar doenças a um custo acessível, é a chamada medicina de precisão. Neste tipo de tratamento, as informações geradas na medicina personalizada são utilizadas para alimentar programas de computador que podem gerar tratamento mais específicos, baseados nos resultados do conjunto de exames feitos pelo paciente. Então, por exemplo, se um pequeno conjunto de pessoas fizerem um tratamento de câncer de mama usando medicina personalizada, as informações geradas durante esses tratamentos poderiam ser usadas para gerar um banco de dados com informações sobre eficácia de cada tipo de tratamento, reações adversas e dados individuais de cada paciente.

Programas computacionais poderão correlacionar esses dados e gerar protocolos de tratamentos mais precisos. Os médicos poderão então escolher o protocolo mais adequado com base nos exames dos pacientes, sem precisar realizar todos os testes necessários para medicina personalizada, aumentando a eficiência dos tratamentos, a um custo mais razoável.

Tanto a medicina personalizada como a medicina de precisão ainda são pouco usadas, especialmente no Brasil, mas estão aumentando em frequência. Estamos caminhando para chegar a tratamentos contra cânceres com maior precisão conforme os pesquisadores conhecem melhor os genomas dos tumores.

por Patricia S. Sujii

sujiips@gmail.com

Referências:
Chin, L., Andersen, J. N., & Futreal, P. A. (2011). Cancer genomics: from discovery science to personalized medicine. Nature medicine, 17(3), 297.

Katoh, M. (2017). The integration of genomics testing and functional proteomics in the era of personalized medicine.

Imagem: U.S. Food and Drug Administration

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