Vou começar meu texto de hoje com um causo:

É muito comum que as pessoas conversem sobre suas ocupações e, muitas vezes, a expectativa e a realidade sobre a rotina de trabalho do outro não coincidam tanto assim. Com pesquisadores, isso não é diferente. Quando um cientista diz que trabalha com grandes mamíferos como bichos-preguiça, onças, lobos, golfinhos, etc. (também carinhosamente chamados de “fofofauna”), a maioria das pessoas imediatamente imagina como deve ser divertido tirar uma selfie com um filhote de onça pintada!

É claro que encontrar animais silvestres na natureza é uma situação desejada pela maioria dos biólogos e outros profissionais de áreas correlatas, mas infelizmente (ou felizmente para a paz de espírito dos bichos) esses encontros são bastante raros. Muitos profissionais que estudam animais silvestres utilizam técnicas que chamamos de não destrutivas e não invasivas para conhecer melhor seus objetos de estudo. Essas técnicas minimizam o sofrimento animal e têm sido cada vez mais usadas por estudiosos da Biologia da Conservação, uma área do conhecimento que tem como objetivos compreender os efeitos das ações humanas sobre a biodiversidade e prevenir a extinção de espécies. [Primack, Rodriges 2001]

As técnicas que visam minimizar o sofrimento animal durante o estudo são chamadas de técnicas não destrutivas de amostragem. Essas técnicas incluem biópsias de tecidos sem que o animal seja sacrificado, como a retirada de pequenas amostras de pele ou músculo. Também é possível obter amostras para estudos sem que o pesquisador precise encontrar pessoalmente o animal, as chamadas técnicas não invasivas. Elas são especialmente vantajosas quando o animal sofre um estresse muito grande pela simples presença humana ou quando é muito difícil encontrar o animal, por exemplo, quando ele é muito rápido ou ocupa uma área muito grande.

Técnicas não invasivas incluem amostras de pêlos de animais, como pode ser observado no vídeo abaixo.

Nesse exemplo, pesquisadores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), uma agência de pesquisa de ciências naturais e da Universidade de Montana se aproveitam de um comportamento natural dos ursos – eles se esfregam nas árvores para deixar seu cheiro. Enquanto eles se esfregam, acabam deixando pêlo e pequenos pedaços de pele, de onde pode ser obtido DNA para a realização de diversos estudos: abundância de animais na área, proporção de machos e fêmeas, padrões de migração, flutuações na densidade populacional, entre outros. [Mills 2012]

Outra possibilidade é a amostra de fezes, como observado no vídeo abaixo com estudos de pandas.

No Brasil, essas técnicas também são utilizadas. A pesquisadora Natalia Mannise e seus colaboradores estudaram um grupo de lobos guará na Estação Ecológica de Itirapina, uma área de Cerrado no interior de São Paulo. Eles recolheram 84 amostras de fezes animais ao longo de um ano e fizeram a identificação por meio de testes de DNA. O estudo permitiu identificar 13 lobos diferentes, sendo oito fêmeas e cinco machos, que pertenciam a três famílias diferentes. Esses dados mostraram que os animais são capazes de se movimentar entre áreas de proteção ambiental diferentes, o que ajuda na preservação da espécie que é ameaçada de extinção pela redução de áreas habitáveis. [Mannise et al. 2018]

Outros estudos brasileiros recentes incluem a investigação do estado de vulnerabilidade de onças pintadas na Mata Atlântica [Srbek-Araujo et al. 2018]; estudo de comportamento e uso de diferentes áreas da floresta Amazônica por onças pintadas e onças pardas [Palomares et al. 2017]; e um estudo de diversidade de onças pardas para traçar planos de manejo em áreas de Mata Atlântica e Cerrado [Saranholi et al. 2017].

Então, trabalhar com fezes e pêlos de animais pode não ser tão popular na hora de postar uma foto nas redes sociais, mas é uma alternativa que estressa menos os animais e traz resultados importantes para pesquisas de Biologia de Conservação e outras áreas do conhecimento.

Se você gostou da tirinha, tem outras curiosidades sobre esse assunto ou sugestões de outros temas, deixe um comentário ou mande uma mensagem pra gente por e-mail (cienciainformativa@gmail.com) ou nas nossas redes sociais!

por Patricia S. Sujii

sujiips@gmail.com

Referências

Mannise, N., Trovati, R. G., Duarte, J. M. B., Maldonado, J. E., & González, S. (2018). Using non–invasive genetic techniques to assist in maned wolf conservation in a remnant fragment of the Brazilian Cerrado. Biodiversity and Conservation, 41, 315-319.

Mills, L. S. (2012). Conservation of wildlife populations: demography, genetics, and management. John Wiley & Sons.

Palomares, F., Adrados, B., Zanin, M., Silveira, L., & Keller, C. (2017). A non-invasive faecal survey for the study of spatial ecology and kinship of solitary felids in the Viruá National Park, Amazon Basin. Mammal Research, 62(3), 241-249.

Primack, R. B., & Rodrigues, E. (2001). Biologia da conservação. Londrina: ed. Vida.

Srbek-Araujo, A. C., Haag, T., Chiarello, A. G., Salzano, F. M., & Eizirik, E. (2018). Worrisome isolation: noninvasive genetic analyses shed light on the critical status of a remnant jaguar population. Journal of Mammalogy, 99(2), 397-407.

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