Você já reparou em como você fala com cada pessoa no seu dia-a-dia? Será que a sua linguagem muda dependendo de a quem você se dirige? Em um estudo publicado na revista PNAS, Rob Voigt e colaboradores, da Universidade de Stanford, analisaram filmagens de interações cotidianas de policiais com motoristas e descobriram que, na sua linguagem, eles mostram muito menos respeito pelos cidadãos negros do que pelos brancos.

Em muitos estados dos Estados Unidos, os policiais são obrigados a usar uma câmera que grava as suas ações durante o seu trabalho. Então, Rob Voigt e colaboradores decidiram estudar as gravações de conversas entre policiais e cidadãos que eles abordavam no trânsito na cidade de Oakland, na Califórnia. O objetivo deles era observar se havia alguma diferença no tratamento que os policiais davam a pessoas negras e brancas.

Primeiramente, os cientistas pediram que vários voluntários, sem saber qual era a etnia dos motoristas abordados, ouvissem as gravações e avaliassem quão respeitosos e formais os policiais eram. Depois, os pesquisadores usaram essas respostas para criar um programa de computador que fizesse essa avaliação de respeito e formalidade, e o aplicaram em um número muito maior de conversas.

O resultado obtido foi muito claro: embora não houvesse diferença no nível de formalidade com que os policiais tratavam os cidadãos, eles mostravam muito mais respeito pelos motoristas brancos do que pelos negros. Essa diferença aparecia até mesmo quando se levava em conta o tipo de infração cometida e a idade e gênero dos motoristas.

Além disso, os pesquisadores concluíram que os motoristas brancos tinham 57% mais chance de ouvir de um policial alguma das frases mais respeitosas do banco de dados (como pedidos de desculpa e demonstrações de gratidão). Por outro lado, os cidadãos negros tinham 61% mais chance de ouvir alguma das frases menos respeitosas (como chamar o cidadão pelo primeiro nome e pedir que ele mantivesse as mãos no volante).

Apesar de esse estudo ter sido conduzido nos Estados Unidos, nós podemos usá-lo para pensar na discriminação étnica no Brasil. Muitas vezes, até mesmo sem perceber, nós damos tratamentos distintos a pessoas de minorias sociais. Por exemplo, veja esses dois títulos de notícias publicadas nos últimos dois meses por um jornal online. Dois grupos de pessoas diferentes foram presos por um mesmo crime e, no entanto, são retratados de forma distinta na mídia: as pessoas brancas (e de maior condição financeira) são jovens enquanto as pessoas negras (e menos favorecidas economicamente) são bandidos.

 

Manchetes - Jovens são presos por tráfico em condomínio de luxo em Vila Velha; Três bandidos são presos por tráfico de drogas em Linhares
Manchetes – Jovens são presos por tráfico em condomínio de luxo em Vila Velha;
Três bandidos são presos por tráfico de drogas em Linhares

É natural tratar as pessoas à nossa volta de formas distintas: nós falamos com o nosso chefe diferentemente de como falamos com o nosso melhor amigo. Porém, essa pesquisa da Universidade de Stanford nos mostra que há outros fatores envolvidos nos diferentes níveis de respeito que nós demonstramos aos demais.

Então, é importante perceber se as nossas diferentes formas de tratamento são adequadas ou se são apenas fruto (e reforço) de discriminações que nós, muitas vezes, nem percebemos.

Thomaz Offrede

 

Referência

Voigt, R., Camp, N. P., Prabhakaran, V., Hamilton, W. L., Hetey, R. C., Griffiths, C. M., . . . Eberhardt, J. L. (Junho de 2017). Language from police body camera footage shows racial disparities in officer respect. PNAS, 114(25) pp. 6521-6526.

Notícias publicadas no jornal: http://www.gazetaonline.com.br/noticias/cidades/2017/07/jovens-sao-presos-por-trafico-em-condominio-de-luxo-em-vila-velha-1014083247.html e http://www.gazetaonline.com.br/noticias/norte/2017/06/tres-bandidos-sao-presos-por-trafico-de-drogas-em-linhares-1014068399.html

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