Invasor é tudo que entra em um lugar onde não é bem-vindo, ou seja, que incomoda, atrapalha ou prejudica de alguma forma quem já estava naquele local. Espécies que por muito tempo apresentavam distribuição restrita tiveram, através da ação humana, a oportunidade de chegar a locais anteriormente fora de seu alcance, acabando por entrar em contato com espécies nativas. A introdução de espécies invasoras modifica os ecossistemas locais de várias formas, seja excluindo espécies nativas através da competição, alterando características do local, transmitindo doenças ou causando prejuízos econômicos.

Espécies invasoras se tornaram uma das maiores ameaças ao meio ambiente, sendo a segunda maior causa de extinções em áreas continentais, perdendo apenas para a degradação de habitats causada pelo homem. Em ilhas, as espécies invasoras são a principal causa de perda de biodiversidade. No Havaí, a carpa japonesa (Ciprinus carpio, Fig. 1) foi introduzida para embelezar tanques nos jardins de hotéis e casas de milionários. O fato é que alguns destes animais conseguiram fugir, entrando no sistema natural da ilha. No prazo de alguns anos, das aproximadamente 43 espécies de peixes nativas do Havaí, restaram apenas 5. Isto ocorreu, pois, a Carpa pode causar turbidez excessiva da água, além de predar larvas e ovos de peixes nativos e ainda por ser hospedeira de um parasita que não existia no local. Todos esses fatores podem ter contribuído para a diminuição da biodiversidade local.

Fig_1

Figura 1 – Ciprinus carpio (Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/d/d3/Goldfish2.cropped.jpg/250px-Goldfish2.cropped.jpg).

Outro exemplo ocorreu em outra ilha do pacífico, Guan, onde uma serpente (Boiga irregulares, Fig 2) foi transportada por aviões militares durante a segunda guerra mundial. A invasora, que se alimentava quase que exclusivamente de aves e ovos, reduziu dramaticamente número das espécies de aves nativas. Com esta redução, a população de aranhas aumentou, tendo em vista que seus predadores naturais desapareceram. Com a redução de aves e o aumento das aranhas, insetos polinizadores passaram a ser predados pelas aranhas, ameaçando também a diversidade vegetal na pequena ilha. Esse é um exemplo claro de que a introdução de espécies invasoras pode afetar o ecossistema de diversas maneiras.

Fig_2

Figura 2 – Boiga irregulares (Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/c9/Brown_tree_snake_Boiga_irregularis_2_USGS_Photograph.jpg/220px-Brown_tree_snake_Boiga_irregularis_2_USGS_Photograph.jpg).

As introduções de organismos indesejados podem se dar de duas maneiras:

– Introdução intencional: quando a espécie é levada para outro local para algum fim específico e acaba saindo do controle, como por exemplo, os coelhos na Austrália. Em questão de 5 anos, 13 coelhos que foram levados como presente a um fazendeiro, escaparam e geraram uma população de exorbitantes dois milhões de indivíduos, que cresceram descontroladamente com o passar dos anos.

– Introdução acidental: quando a espécie “pega uma carona” e é levada sem ser percebida como, por exemplo, ratos nos porões dos navios nas grandes navegações, ou ovos de vespas dentro de figos importados.

Em ambos os casos, as introduções de espécies podem ser extremamente danosas ao meio ambiente, saúde humana e economia. Estima-se que os gastos com serviços públicos, controle e reparo dos danos causados por espécies exóticas no mundo sejam de aproximadamente 5% do PIB mundial! Para ter uma ideia de proporção, basta pensarmos nos gastos governamentais com campanhas, medidas profiláticas e atendimento a pacientes vítimas do mosquito da dengue (Aedes aegypti), que é uma espécie invasora, no Brasil: cerca de 152 milhões no ano de 2016, com projeções para 2 bilhões até o final de 2018, segundo o Ministério da Saúde.

Uma vez estabelecida, a espécie invasora torna-se muito mais difícil e custosa de controlar, sendo que a prevenção é, ainda, a melhor forma saída. Países como a Austrália e Nova Zelândia estabeleceram medidas severas de controle de entrada de novos organismos, por meio de questionários de avaliação de risco, para espécies de interesse econômico, e de inspeções rigorosas em viajantes e suas bagagens, para espécies oportunistas.

Esse é um problema mundial que explodiu com a evolução dos transportes e aumento da quantidade de viagens ao redor no planeta no último século. No Brasil, ainda estamos engatinhando no que diz respeito a políticas de prevenção e manejo de espécies exóticas, no entanto, o número de estudos e o impacto causado por invasões biológicas tem aumentado e passou a chamar a atenção de gestores e da sociedade.

Stefano Aires

Fale com o pesquisador: stefanoaires@gmail.com

 

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