Uma pesquisa publicada recentemente por um grupo de ornitólogos, que inclui um brasileiro, mostrou que uma rara espécie de pássaro da Amazônia (imagem em destaque) é, na verdade, um híbrido entre duas outras espécies. O pequeno e misterioso dançador-de-coroa-dourada (Lepidothrix vilasboasi) vive próximo ao Rio Tapajós e é a primeira espécie de ave híbrida na Amazônia, o que é uma descoberta considerada muito importante do ponto de vista genético e de conservação da natureza. No texto dessa semana vamos saber mais sobre essa descoberta! Vem ler!

Primeiramente, é necessário relembrarmos o que é o processo de hibridação e formação de espécies. Hibridação é quando duas espécies diferentes, porém com características fenotípicas próximas, cruzam-se dando origem a um híbrido, ou seja, um organismo mestiço resultante do cruzamento de dois conjuntos genéticos diferentes. Quando esses híbridos começam a preferir se cruzar com indivíduos também mestiços e não com indivíduos da espécie parental, se estabelece então uma nova espécie. Em alguns casos – como no caso da mula, uma espécie resultante do cruzamento do jumento com uma égua – o híbrido é infértil, devido a desbalanços genéticos, porém em outros casos – como em algumas espécies de abelha – ele é capaz de se reproduzir normalmente. Espécies híbridas no mundo vegetal são bem comuns, porém espécies híbridas no mundo animal – e principalmente nos animais vertebrados – são muito raras, e isso é um dos motivos que torna essa descoberta ainda mais importante.

Através de análises genéticas e morfológicas (principalmente das penas), a equipe de pesquisadores que inclui o brasileiro Alexandre Aleixo, descobriu que o dançador-de-coroa-dourada foi formado pelo cruzamento interespecífico do uirapuru-de-chapéu-branco (Lepidothrix nattereri) com o cabeça-de-prata (Lepidothrix iris), espécies semelhantes que habitam regiões vizinhas (figura 1).

Figura 1: nesta figura é possível ver a semelhança entre as espécies envolvidas na formação do híbrido dançador-de-cabeça-dourada (meio): à esquerda temos o uirapuru-de-chapéu-branco e à direita temos o cabeça-prata. Fonte: [1]

 

Os pesquisadores descobriram que 20% do genoma do dançador-de-cabeça-dourada é proveniente da espécie uirapuru-de-chapéu-branco e 80% veio da espécie cabeça-prata, ou seja, o dançador-de-cabeça-dourada é realmente uma mistura genética das duas espécies da qual se originou. Segundo o grupo, por algum motivo (provavelmente isolamento geográfico), há cerca de 18 mil anos os pássaros híbridos passaram a se reproduzir apenas entre eles e não mais com os parentais, originando a nova espécie.

Usando também microscopia eletrônica, os pesquisadores observaram que a nanoestrutura das penas das espécies parentais é diferente, produzindo uma coroa branca na cabeça do uirapuru e uma coroa azul com faixa branca na espécie cabeça-prata; já no dançador-de-cabeça-prata a nanoestrutura das penas é distinta e aparentemente com um padrão intermediário ao observado nas espécies parentais, produzindo uma coroa amarela pelo acúmulo de carotenóides (pigmentos amarelados) nas penas. Essa coloração amarela da cabeça do dançador-de-cabeça-dourada se tornou uma característica exclusiva desta espécie, que é usada pelo macho para atrair a fêmea para o acasalamento.

Com este estudo surpreendente os pesquisadores descobriram a primeira espécie de ave da Amazônia resultante do processo de hibridação, juntando-se a apenas outras três espécies de aves no mundo. E por que este tipo de pesquisa é tão importante? Do ponto de vista de conservação das espécies é muito importante conhecer a espécie para preservá-la, ainda mais sendo de um lugar tão rico e único em biodiversidade, como a Amazônia é.

Até a próxima!

Por Nathália de Moraes

nathalia.esalq.bio@gmail.com

Referências:

[1] Barrera-Guzmán, A. O; Aleixo, A.; Shawkey, M. D.; Weir, J.T. (2018). Hybrid speciation leads to novel male secondary sexual ornamentation of an Amazonian bird. PNAS. January, 115 (2) E218-E225  https://doi.org/10.1073/pnas.1717319115. Acessado de  http://www.pnas.org/content/115/2/E218 em fevereiro de 2018.

[2] Revista Pesquisa FAPESP. (2018). Ave da Amazônia se originou de processo de hibridização. Acessado de

http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/01/16/ave-da-amazonia-se-originou-de-processo-de-hibridizacao/ em fevereiro de 2018.

[3] Sci News. (2017). Amazon’s First Hybrid Bird Species Found: Golden-Crowned Manakin. Acessado de  http://www.sci-news.com/biology/golden-crowned-manakin-hybrid-bird-05575.html em fevereiro de 2018.

[4] Fioravant, C. (2011). Revista Pesquisa FAPESP. Quando os híbridos são férteis. Acessado de http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/07/12/quando-os-h%C3%ADbridos-s%C3%A3o-f%C3%A9rteis/ em fevereiro de 2018.

[5] Imagem em destaque: https://thevarsity.ca/2018/01/07/amazonian-birds-of-a-feather/

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