Parte III: o diagnóstico, o tratamento e a busca por uma vacina 

Uma das formas de se entender como está a progressão da COVID-19 em um determinado país é testando os habitantes e analisando o número de casos. Embora os testes para a COVID-19 tenham se “popularizado”, sendo oferecidos em farmácias e clínicas, é preciso entender que testes diferentes indicam resultados diferentes. 

Existem 2 tipos de testes diagnósticos para a COVID-19: um tipo que detecta a presença do vírus SARS-CoV-2 e outro tipo que detecta o anticorpo produzido em sua resposta.

No primeiro tipo de teste é feita a coleta de material biológico por meio de uma haste flexível com algodão nas pontas. Essa é delicadamente esfregada na mucosa da boca (imagem 1) ou na cavidade final do nariz. Se estiver presente, o material genético do vírus (RNA) é extraído dessa amostra e transformado em DNA, que por sua vez é multiplicado pela técnica chamada de PCR (reação em cadeia da polimerase).  Assim, é possível detectar ou não a presença do vírus, a partir do seu material genético, em um paciente. 

A quantidade do vírus no corpo de uma pessoa infectada atinge o pico ainda no início da infecção, quando geralmente começam os sintomas (cerca de 3 a 10 dias), sendo esse o melhor período para a realização do teste. Assim, dependendo do momento da infecção em que a pessoa está, é mais difícil conseguir resultados confiáveis. Alguns estudos mostram que mais ao fim da infecção a quantidade de vírus diminui consideravelmente na garganta e no nariz, o que poderia levar a um resultado falso-negativo (ou seja, o teste aponta um resultado negativo para o coronavírus, mas a pessoa tem carga viral). 

A coleta das amostras do fundo do nariz e da garganta pode ser desconfortável para o paciente e precisa de muita habilidade técnica para ser realizada. Contornando esse problema, um estudo divulgado no fim de abril por pesquisadores da Universidade de Yale (EUA) mostrou que amostras de saliva dão melhores resultados na identificação do vírus pela técnica de PCR. A coleta de saliva é menos invasiva e desconfortável para os pacientes e mais fácil de ser realizada pelos profissionais de saúde.

Imagem 1: coleta de material biológico para teste diagnóstico com base em PCR.

 

O teste de PCR é muito sensível, porém também é laborioso e exige adequações técnicas que em muitos lugares não existem: recursos humanos treinados para coleta e realização do teste, local adequado para o armazenamento da amostra e equipamentos de laboratório. 

Outro tipo de teste busca pela resposta dada pelo nosso corpo à invasão pelo coronavírus: os anticorpos. Cerca de 10 dias após a infecção alguns anticorpos do tipo IgM já podem ser detectados no sangue e cerca de duas semanas após a infecção os anticorpos do tipo IgG são detectáveis. Com o passar do tempo o número de anticorpos aumenta no organismo e diminuem as chances do teste apontar um falso-negativo. Como podemos ver, os anticorpos não são adequados para se detectar a infecção pelo novo coronavírus em seu começo, mas são úteis para se ter ideia de quantas pessoas ficaram doentes. 

Ainda não podemos afirmar se os anticorpos produzidos após a infecção pelo novo coronavírus conferem imunidade e, se sim, por quanto tempo essa imunidade dura. Um estudo realizado por pesquisadores chineses feito com pacientes que tiveram SARS mostrou a presença de anticorpos no sangue desses pacientes mesmo após seis anos da infecção. Para os cientistas, pessoas que tiveram um quadro de infecção mais aguda e desenvolveram mais sintomas tiveram maior prevalência dos anticorpos.

Entender a resposta do nosso corpo ao coronavírus é relevante já que muito se fala sobre um “passaporte” de imunidade para viajar e voltar ao trabalho. Muitas pessoas acreditam que ao ter COVID-19 e se curar, elas podem imediatamente voltar à rotina “normal”. Mas do ponto de vista médico, com base no que temos de pesquisa até hoje, isso ainda não pode ser afirmado com segurança. 

 

Os tratamentos para a COVID-19

Não existem tratamentos efetivos e confiáveis para a COVID-19 até o momento. Muitos medicamentos estão em testes, inclusive aqueles que já são usados no tratamento de doenças autoimunes e da AIDS. O remdesivir, por exemplo, foi usado no combate à SARS, porém, um dos estudos preliminares publicado no fim de maio mostrou que, apesar de reduzir o tempo médio de internação dos pacientes com a COVID-19, pessoas tratadas com remdesivir sofreram sérios efeitos colaterais. 

A hidroxicloroquina, amplamente usada no tratamento da malária e de doenças autoimunes, também foi apontada inicialmente como possível tratamento para a COVID-19. Mas não existem, até o momento, dados robustos que indiquem seu uso seguro no combate à doença.

Outra pesquisa publicada no início de junho na revista Science mostrou que a droga acalabrutinibe, usada no tratamento de alguns tipos de câncer no sangue, apresentou resultados positivos no combate à COVID-19, diminuindo o tempo de internação e o número de dias em que o paciente precisou de respirador. 

Na semana passada cientistas britânicos da Universidade de Oxford anunciaram que a dexametasona reduziu em ⅓ o número de mortes de pacientes que estavam em respiradores. Para casos mais leves, no entanto, não houve resultados significativos que justifiquem o uso do medicamento, que é comumente usado em tratamentos que requeiram a diminuição das atividades de defesa do corpo (imunossupressão). Justamente por conta dessa diminuição das defesas do corpo é que pessoas com sintomas leves ou pessoas saudáveis não devem tomar dexametasona, pois isso deixaria o organismo mais exposto a qualquer outro tipo de infecção, o que é perigoso.

 

A busca por uma vacina

A possibilidade da COVID-19 se tornar endêmica em algumas partes do mundo aumenta ainda mais a pressão para se desenvolver uma vacina.

No entanto, isso pode demorar décadas. Além do mais, a sua produção e distribuição devem levar em consideração que nem todos os países do mundo têm capacidade técnica para produzir a vacina e/ou dinheiro para comprá-la. Se quisermos vacinar toda a população, estamos falando de mais de 7 bilhões de doses.

Também temos outras perguntas para responder: a imunidade gerada pelo novo coronavírus persiste? Por quanto tempo? Qual a vacina mais adequada (vírus atenuado ou partes do vírus)? A vacina será intramuscular (como a que tomamos sazonalmente para a gripe comum no Brasil) ou spray nasal (como é a vacina de gripe em alguns países da Europa e nos EUA)?

As vacinas contra MERS e SARS foram feitas com o vírus inativado e mostraram bons resultados. Para COVID-19, um dos estudos mais promissores está sendo realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford. A vacina, chamada ChAdOx1, está na fase de teste em humanos, sendo que existem voluntários brasileiros de SP e do RJ para essa fase de testes. Apesar da rapidez com a qual esse estudo vem sendo conduzido, o caminho ainda é longo. Os voluntários serão acompanhados por até 1 ano, período pelo qual deverão se submeter a exames para observar a eficácia da vacina e possíveis efeitos colaterais. A vacina deve ser segura e não deve apresentar mais riscos que a própria doença. Se funcionar, será produzida em larga escala para o Reino Unido e para os EUA por uma empresa farmacêutica. Com relação ao Brasil, segundo o ministro interino da saúde, Eduardo Pazuello, está em negociação um acordo com a mesma farmacêutica para que haja a produção da vacina para os brasileiros.

 

O caminho é longo e os desafios estão presentes no nosso cotidiano nos lembrando dia após dia do momento em que vivemos. Apesar de todas as incertezas e do medo que podemos sentir em meio a esse momento de caos, não podemos duvidar da importância da ciência, que é feita por pessoas comprometidas e que se baseiam em fatos e não em “achismos”, como forma de mudar nossa vida.

Por Nathália de Moraes

nathalia.esalq.bio@gmail.com

 

Referências

[1] https://en.wikipedia.org/wiki/COVID-19_testing
[2] https://news.yale.edu/2020/04/24/saliva-samples-preferable-deep-nasal-swabs-testing-covid-19
[3] https://www.sciencenews.org/article/coronavirus-covid-19-where-things-stand-tests-testing-united-states
[4] http://associacaopaulistamedicina.org.br/covid19/assets/arquivos/COVID-19-Adagmar-Andriolo-et-al.pdf
[5] https://www.jimmunol.org/content/jimmunol/186/12/7264.full.pdf
[6] https://www.nytimes.com/2020/04/10/health/coronavirus-antibody-test.html
[7] https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2007764
[8] https://in.reuters.com/article/health-coronavirus-hydroxychloroquine-tr/uk-halts-trial-of-hydroxychloroquine-as-useless-for-covid-19-patients-idINKBN23C1YT
[9] https://immunology.sciencemag.org/content/5/48/eabd0110
[10] https://g1.globo.com/bemestar/vacina/noticia/2020/06/05/lote-da-vacina-de-oxford-ja-chegou-ao-brasil-saiba-quem-pode-ser-voluntario-e-como-sera-o-teste-contra-a-covid-19.ghtml
[11] https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/06/16/esteroide-dexametasona-reduz-mortes-por-covid-19-diz-pesquisa-de-oxford.htm
[12] https://www.google.com/search?q=PCR+COVID&sxsrf=ALeKk00Ecr8Ow9tuSEhUV_scaux-KDtsqg:1592327119688&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwjo8dbi6IbqAhWVJ7kGHVUaAs8Q_AUoAXoECAsQAw&biw=1536&bih=722#imgrc=fhRzdu1cst9T4M
[13] Fonte da imagem 1: https://en.wikipedia.org/wiki/COVID-19_testing#/media/File:Infektionsschutzzentrum_im_Rautenstrauch-Joest-Museum,_K%C3%B6ln-6306_(cropped).jpg
[14] https://veja.abril.com.br/saude/brasil-pode-assinar-acordo-para-produzir-vacina-de-oxford-diz-governo/

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