Será que falar mais de uma língua só traz benefícios? Há algumas semanas, por exemplo, nós aprendemos que bilíngues possuem uma flexibilidade social maior do que monolíngues. Porém, nem tudo são flores: há algum tempo, já se sabe que pessoas bilíngues tendem a ter um vocabulário menor do que monolíngues, e que elas demoram mais tempo para acessar esse vocabulário. Três cientistas americanos elaboraram uma pesquisa para tentar entender o motivo por trás dessa desvantagem que as pessoas multilíngues possuem.

Existem duas grandes teorias que explicam essa diferença: a teoria da defasagem de frequência e a teoria da competição.

Teoria da defasagem de frequência

A teoria da defasagem de frequência (que diz respeito ao processamento linguístico) afirma que os bilíngues demoram mais para acessar palavras em sua mente porque eles usam as palavras em cada língua com menos frequência do que os monolíngues – o que faria a conexão conceito-palavra mais fraca.

Assim, por exemplo, uma pessoa trilíngue demoraria ainda mais do que uma bilíngue para acessar uma palavra, já que ela usa cada língua ainda menos. No entanto, uma pessoa bilíngue mais velha não demoraria muito mais do que os monolíngues para acessar as palavras, já que ela teve mais tempo de vida e, então, mais tempo de “prática” das línguas.

Ainda de acordo com essa teoria, palavras que aparecem pouco no nosso dia-a-dia (palavras de baixa frequência), junto ao fato de elas já serem menos praticadas pelo indivíduo, tornariam o acesso a elas extremamente mais complicado para os multilíngues – diz-se, então, que haveria uma interação entre a frequência da palavra e o grupo linguístico (monolíngue x multilíngue).

Teoria da competição

A teoria da competição, por outro lado, faz referência à nossa experiência cognitiva. Ela diz que a demora se dá porque os bilíngues precisam resolver um conflito cognitivo: como as duas línguas são acessadas ao mesmo tempo no cérebro, o indivíduo precisa escolher constantemente qual palavra usar, o que retarda o acesso a ela. De acordo com essa teoria, não haveria uma diferença significativa entre pessoas trilíngues e bilíngues, já que elas precisam resolver esse conflito cognitivo de forma similar.

Além disso, pessoas mais velhas não passariam a acessar palavras mais rapidamente, já que a necessidade de resolver o conflito cognitivo não se altera. Nessa visão, as palavras de baixa frequência não precisariam de muito tempo a mais para serem selecionadas no repertório linguístico do indivíduo.

O experimento

Para avaliar qual das duas teorias é mais adequada, esses três pesquisadores mostraram várias imagens a pessoas monolíngues, bilíngues e trilíngues de várias idades, e lhes pediram, simplesmente, para nomear essas figuras. Então, eles avaliaram quanto tempo os participantes demoraram para responder e quão precisos eles eram nas palavras.

Eles observaram que trilíngues jovens não mostraram muita diferença na demora para acessar as palavras com relação aos monolíngues ou bilíngues jovens – então, a diferença de idade não fez que o tempo de acesso lexical mudasse, o que confirma a teoria da competição. Além disso, bilíngues e trilíngues demoraram o mesmo tempo adicional para acessar as palavras de baixa frequência, o que também está de acordo com a teoria da competição.

Por outro lado, a teoria da defasagem de frequência também foi validada. Os monolíngues tinham alta precisão em todas as palavras – tanto as de baixa quanto as de alta frequência. Porém, os participantes multilíngues eram muito mais precisos nas suas respostas quando se tratavam de palavras de alta frequência (em vez de baixa frequência), apesar de não ter havido diferença entre os bilíngues e os trilíngues. Então, houve uma interação entre o grupo linguístico e a frequência da palavra, o que corrobora a teoria da defasagem de frequência.

A conclusão de tudo isso é que as duas teorias interagem entre si, e que o uso da linguagem é complexo e envolve muitos fatores: tanto a teoria relacionada ao processamento linguístico quanto a relacionada ao processamento cognitivo devem ser levadas em consideração para entender por que os bilíngues (e trilíngues) demoram mais do que os monolíngues para acessar palavras.

Uma coisa é certa: a relação da língua com o nosso cérebro é muito complexa e ainda vai dar muito o que falar!

Thomaz Offrede

Referência

Sullivan, M. D., Poarch, G. J., & Bialystok, E. (2017). Why is lexical retrieval slower for bilinguals? Evidence from picture naming. Bilingualism: Language and Cognition, pp. 1-10.

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