No começo desse ano durante uma viagem ao sul do Brasil, mais precisamente à Santa Catarina, fui visitar um sítio que tinha produção de mel. Neste lugar conheci a dona do sítio, uma simpática e muito experiente senhora que me contou que, numa das consultas no médico feita após uma ferroada de abelha, a receita passada pelo médico para diminuir a dor e o inchaço foi de tomar alguns goles de café “passado e frio”, aquele que fica por horas no bule após estar pronto.

Coincidência ou não, a senhora disse-me que depois que ficou sabendo disso nunca mais jogou fora o café que faz todas as manhãs e que também não teve mais problemas com as picadas das abelhas durante o seu trabalho. Segunda ela, “a cafeína”, disse o médico, “era o remédio que estava no café”. Voltando de lá fiquei muito curiosa e embarquei, é claro, em mais uma pesquisa para saber mais sobre a cafeína e todos seus riscos e benefícios. Quer saber mais sobre o assunto? Ficou curioso com a história da senhora do sítio? Então pegue uma xícara de café e boa leitura!

A cafeína é um composto químico que pertence ao grupo dos alcaloides e cuja fórmula é C8H10N4O2 (figura 1). É certamente a droga mais popular no mundo, sendo consumida na forma de chás, café, chocolate, estimulantes, refrigerantes à base de cola e energéticos, por pessoas de todas as idades. A cafeína foi primeiramente isolada de grãos de café pelo alemão Friedlieb Ferdinand Runge (1794-1867). Runge conseguiu identificar a cafeína somente no ano de 1819, porém há muito tempo já se sabia das propriedades estimulantes que o café e o chá tinham nas pessoas; há relatos de que o líder espiritual Lao-Tsé (século 6 A.C.) recomendava aos seus discípulos a ingestão de chá a partir de folhas de Camellia sinensis quando eles precisavam de concentração para os longos períodos de reflexão.

Figura 1: molécula de cafeína. Fonte: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/02/cafeina.jpg
Figura 1: molécula de cafeína. Fonte: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/02/cafeina.jpg

A quantidade de cafeína presente nos alimentos varia bastante de acordo com o modo de preparo destes e o tamanho da porção: em um copo de 150 mL de café coado existem de 60 a 150 mg de cafeína; o café solúvel contém até 100 mg; já em 100g de chocolate ao leite existem 20 mg de cafeína e em 350 mL de refrigerante à base de cola há 35 mg de cafeína. A quantidade recomendada máxima que um adulto pode ingerir de cafeína por dia é 400 mg, porém crianças, adolescentes e pessoas mais sensíveis devem tomar no máximo 100 mg.

Quando ingerimos algum alimento com cafeína ela é absorvida no intestino delgado e depois é levada pela corrente sanguínea para todos os órgãos do corpo. Como não se acumula no organismo, após algumas horas do consumo ela é excretada com a ajuda do fígado e dos rins. Seus efeitos variam em intensidade e duração dependendo da pessoa, mas de maneira geral a cafeína acelera os batimentos cardíacos, aumenta o fluxo urinário (tem efeito diurético), aumenta a produção de ácidos digestivos, relaxa a musculatura lisa e também age no cérebro. Considerada uma droga estimulante, ela tem efeito pronunciado no sistema nervoso central: ao atingir receptores específicos inibe a ação de hormônios ligados ao repouso, como a adenosina que causa a sensação de torpor e sono. Desta forma, a cafeína apresenta um efeito “revigorante”, aumentando a atenção, a acuidade mental e física.

A cafeína também aumenta a produção de adrenalina e de dopamina; a adrenalina faz, por exemplo, com que a quantidade de açúcar no sangue aumente, o que nos fornece energia extra; já a dopamina mexe com algumas áreas no cérebro que são ligadas à sensação de prazer, da mesma forma que outras drogas como a heroína e a cocaína agem. Aliás, segundo algumas pesquisas, a sensação de bem-estar ligada à manipulação dos níveis de dopamina pode ser uma das razões que levam algumas pessoas a ficarem viciadas em cafeína. Além do vício, a cafeína tem outros efeitos adversos quando consumida em excesso, como dores de cabeça, irritabilidade e disfunção no sono, o que por si só traz muitos problemas.

Devido aos seus mecanismos de ação a cafeína também é usada em remédios, sendo geralmente associada a alguns analgésicos, isso porque ela ajuda na contração de vasos sanguíneos, o que diminui a dor. Apesar de não ser um consenso, algumas pesquisas indicam também que a cafeína ajuda na absorção dos analgésicos pelo corpo e pode dar a sensação de bem-estar que ajuda no alívio da dor.

E quanto ao café melhorar a dor de uma picada de abelha? Bom, a resposta específica eu não encontrei em nenhum artigo científico, mas apesar disso, creio que o poder analgésico e de sensação de bem-estar pode ser a razão da senhora do sítio tomar café quando é ferroada.

Crenças populares à parte, o café faz parte da vida de muitas pessoas e não podemos negar o quanto é culturalmente e economicamente importante. Gostou do texto de hoje? Compartilhe nosso site e se tiver dúvidas ou comentários, deixe em nossa página!

Até a próxima!

Por Nathália de Moraes

nathalia.esalq.bio@gmail.com

Referências bibliográficas

[1] Baumann, T.W. et al. (2010). A ciência e Goethe: cafeína e flores. Ciência e Cultura. 62:1. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252010000100022&script=sci_arttext

[2] The coffee traveler. (2010). Um pouco mais de cafeína. Disponível em:  http://www.thecoffeetraveler.net/new-blog-4/2015/8/25/um-pouco-mais-de-cafena

[3] The Coca-Cola Company. (sem data). Verdades e boatos. Disponível em:  https://www.cocacolabrasil.com.br/verdades-e-boatos/interna/uma-lata-de-coca-cola-tem-metade-da-cafeina-de-uma-xicara-de-cafe/

[4] Varella, M, F. (2014). Quanto de cafeína podemos consumir com segurança? Disponível em: http://drauziovarella.com.br/noticias/qual-a-quantidade-segura-de-cafeina/

[5] Mende, E. L. & Brito, C. J. (2007). O consumo da cafeína como ergogênico nutricional no esporte e suas repercussões na saúde. Disponível em:  http://www.efdeportes.com/efd105/consumo-da-cafeina-como-ergogenico-nutricional-no-esporte.htm

[6] Salgado, J (sem data). Cafeína: como usufruir sem comprometer a saúde. Disponível em: http://www2.uol.com.br/vyaestelar/vida_saudavel_cafeina.htm

[7] Brain, M. (sem data). Cafeína e dopamina. Disponível em: http://saude.hsw.uol.com.br/cafeina4.htm

[8] Alencar, M. (2015). Entenda a presença da cafeína nos remédios. Disponível em: http://revistavivasaude.uol.com.br/clinica-geral/entenda-a-presenca-da-cafeina-nos-remedios/4648/#

[9] Solomon, A. (2012). Does Caffeine Really Boost Painkiller Effectiveness? Disponível em: http://www.everydayhealth.com/pain-management/0316/does-caffeine-really-boost-painkiller-effectiveness.aspx

Fonte imagem em destaque: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/02/cafeina.jpg

4 Replies to “O café nosso de cada dia”

    1. Obrigada! Sim, estamos sempre aprendendo. Se tiver mais algum tema que te interesse, avisa a gente!

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