Aromas ou aromatizantes são substâncias ou misturas de substâncias que são capazes de conferir ou intensificar o aroma e/ou o sabor dos alimentos1. Esses ingredientes são muito comuns na fabricação de alimentos industrializados. Como discutimos no texto anterior sobre a cor dos alimentos, o aroma também é importante para a aceitação de produtos alimentícios pelos consumidores. Além disso, é um indicativo de que o alimento está bom para ser consumido, pois um aroma desagradável leva à percepção de algo estragado e impróprio para ser ingerido. Muitas vezes as etapas do processamento industrial como a desidratação e o congelamento destroem os compostos aromáticos dos alimentos. Outras etapas podem, ainda, gerar cheiros indesejáveis, ou seja, aromas que não são agradáveis. Por isso, o reforço com aromatizantes é realizado pela indústria.

São vários os produtos que são adicionados deste ingrediente: iogurtes, pudins, balas, pirulitos, biscoitos, bolachas, goma de mascar, misturas prontas para sopas e bolos, salgadinhos, maioneses, margarinas, refrescos em pó, refrigerantes, dentre outros. Basta olharmos os rótulos dos alimentos para detectarmos a adição de aromas.

Muitas vezes, mesmo sabendo que há a adição desses compostos, podemos ficar com dúvidas pois nos deparamos com diferentes descrições como contém “aromatizantes”, “aroma natural”, “aroma idêntico ao natural”, “aroma sintético” ou “aroma artificial”, por exemplo.

Basicamente, os aromatizantes podem ser divididos em naturais e sintéticos1.

Os aromatizantes naturais são aqueles que são obtidos exclusivamente a partir de matérias-primas de origem animal ou vegetal que podem ser consumidos por humanos. Os mais comuns são os óleos essenciais (ex: de manjericão ou orégano) e os extratos (ex: extrato de baunilha).

Já os aromatizantes sintéticos são fabricados, ou seja, não são naturais! Dentro deste grupo existem os “aromatizantes idênticos ao natural” e os “aromatizantes artificiais”. Você certamente já leu isso em algum rótulo, não é mesmo? Os chamados de “idênticos” recebem este nome porque são formados por moléculas produzidas quimicamente, mas que são iguais às encontradas na natureza. Já os artificiais possuem uma composição que não se encontra naturalmente. Bem, a definição dos dois é um pouco diferente1, mas na prática estamos falando de substâncias químicas processadas em laboratório que serão utilizadas para dar aroma aos alimentos.  Muitas vezes, o aroma que percebemos em produtos industrializados não é natural. Podemos citar os salgadinhos sabor churrasco, a bolacha com aroma de manteiga e a pipoca com sabor bacon – produtos que normalmente são adicionados de aromas sintéticos.

Mesmo sendo algo importante para a indústria, muitos pesquisadores da área da saúde alertam para perigos devido ao uso dos aromas sintéticos, sejam eles ingeridos ou inalados por trabalhadores da indústria. Problemas no trato digestivo, alergias2,3 e bronquiolite (uma infecção nos bronquíolos – ramificações dos brônquios que levam oxigênio até os pulmões) já foram relatados. Com relação aos casos de bronquiolite, estudos mostraram o surgimento desta doença por causa da inalação de aroma de manteiga por trabalhadores em fábricas de pipocas nos Estados Unidos4 e de biscoitos no Brasil5. No estudo brasileiro são relatados casos de funcionários que apresentaram este quadro clínico após a inalação, pelo período de 1 a 3 anos sem o uso de máscaras, do composto químico que confere o aroma artificial de manteiga (chamado de diacetil) aos alimentos industrializados.

Testes feitos com células vegetais também demonstraram que a ação dos aromas sintéticos pode ser tóxica6. Em um estudo realizado no Brasil, os pesquisadores observaram que aromas do tipo idêntico ao natural de maracujá e artificial de baunilha (ou seja, ambos sintéticos) induziram alterações na multiplicação de células de raízes de cebola. Esse teste é chamado de in vitro, ou seja, não foi realizado com humanos. No entanto, já é possível compreendermos que há uma ação negativa desses ingredientes sobre células da raiz da cebola, uma vez que o estudo demonstrou que estas células não foram capazes de se multiplicarem normalmente devido à presença dos aromatizantes.

Neste mês conversamos sobre alguns dos principais aditivos alimentares encontrados em alimentos industrializados. Nosso objetivo foi trazer mais informações sobre os ingredientes que consumimos diariamente. Conhecendo um pouco mais sobre esses compostos você pode fazer uma escolha mais saudável lendo os rótulos dos produtos. Se você tiver alguma dúvida ou curiosidade sobre esse assunto nos mande uma mensagem por e-mail (cienciainformativa@gmail.com) ou entre em contato através das redes sociais.

por Cínthia Hoch B. de Souza

cinthiahoch@yahoo.com.br

 

Referências:

1Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução de Diretoria Colegiada, RDC nº 2, de 15 de janeiro de 2007. Aprova o Regulamento Técnico sobre Aditivos Aromatizantes. Disponível em:<http://portal.anvisa.gov.br/documents/10181/2718376/RDC_02_2007_COMP.pdf/c966caff-1c19-4a2f-87a6-05f7a09e940b>. Acesso em: 15 maio 2020.

2Konishi, Y.; Hayashi, S.M.; Fukushima, S. Regulatory forum opinion piece*: supporting the need for international harmonization of safety assessments for food flavoring substance. Toxicologic Pathology, v.42, n. 6, p. 949-953, 2014.

3Oliveira, M.V.A.; Alves, D.D.L.; Lima, L.H.G.M.; Castro, J.M.C.; Peron, A.P. Cytotoxicity of erytrosine (E-127), brilliant blue (E-133) and red 40 (E-129) food dyes plant test system. Acta Scientiarum Biological Science, v.35, n.4, p. 557-562, 2013.

4Lockey, J.E.; Hilbert, T.J.; Levin, L.P.; Ryan, P.H.; White, K.L.; Borton, E.K., et al. Airway obstruction related to diacetyl exposure at microwave popcorn production facilities. European Respiratory Journal, v.34, n.1, p.63-71, 2009.

5Cavalcanti, Z.; Albuquerque Filho, A.P.L.; Pereira, C.A.C.; Coletta, E.N.A.M. Bronquiolite associada à exposição a aroma artificial de manteiga em trabalhadores de uma fábrica de biscoitos no Brasil. Jornal Brasileiro de Pneumologia, v.38, n.3, p.395-399, 2012.

6Nunes, R.D.M.; Sales, I.M.S.; Silva, S.I.O.; Sousa, J.M.C.; Peron, A.P. Antiproliferative and genotoxic effects of nature identical and artificial synthetic food additives of aroma and flavor. Brazilian Journal of Biology, v.77, n.1, p.150-154, 2017.

Imagem de capa: Free clipart library.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.