Na última semana vimos exemplos de como a hibernação de alguns animais pode sofrer alterações por causa das mudanças climáticas globais. Nesta semana veremos como a migração de certas espécies de animais está colocada em xeque por causa dessas alterações no clima do nosso planeta.

Vamos relembrar que migração é a movimentação de animais de um habitat para outro em busca de alimento, parceiros reprodutivos e um clima mais agradável. Ela é frequentemente associada às aves, mas muitos outros animais migram anualmente, como, por exemplo, baleias, borboletas, morcegos, zebras e o próprio zooplâncton nos oceanos.

Os animais se utilizam de evidências, pistas ambientais, como duração do dia e temperatura, para saber o momento correto de migrar. Alterações nesses gatilhos, como por exemplo, aumento ou diminuição da temperatura média, podem atrapalhar o animal saber se é ou não o momento de realizar a migração, podem diminuir a oferta de alimento e até mudar as rotas.

É o que vemos no caso dos salmões (figura 1) que migram ao longo da costa oeste dos EUA. O salmão migra de seu local de nascimento para o oceano e depois retorna para a desova. No entanto, o aumento da temperatura em algumas partes dos rios pelos quais os
salmões migram, faz com que seu metabolismo demande mais energia, o que diminui a energia disponível justamente para realizar a migração. Isso acontece porque a água quente exige mais do sistema cardiovascular do peixe, aumentando o gasto basal metabólico (em calorias) e, assim, reduzindo a energia disponível para que o peixe faça sua jornada migratória de forma completa e satisfatória.

Figura 1: migração dos salmões

No caso de aves, um estudo que tomou como base a distância migratória de aves na Holanda durante 73 anos, concluiu que das 24 espécies pesquisadas, 12 tiveram uma diminuição significativa na distância migratória, muito provavelmente devido às mudanças ambientais em seu habitat, como, por exemplo, mais ou menos chuva, o que diminui a oferta de alimento nos locais para onde migravam. Isso obrigou os indivíduos a possivelmente mudar seu destino migratório para encontrar alimento e um local com clima mais ameno.

Mas não apenas a migração e a hibernação dos animais sofre com as mudanças climáticas. Até mesmo a produção de alimentos de origem animal pode ser afetada: um estudo recente que usou modelos de previsão climáticos e de produção leiteira, mostrou que na Inglaterra, muito provavelmente devido ao estresse climático nos animais e a diminuição da qualidade das pastagens, a produção de leite poderá diminuir para até 17% do atual. Isso implica em consequências econômicas e também sociais.

Com esses exemplos podemos verificar como as mudanças climáticas globais afetam a fisiologia e os comportamentos moldados por milhares de anos de evolução. Na próxima semana veremos como essas alterações climáticas podem alterar o comportamento das plantas.

Por Nathália de Moraes

nathalia.esalq.bio@gmail.com

Referências

[1] https://www.nature.com/scitable/knowledge/library/animal-migration-13259533/

[2] https://www.nationalgeographic.org/encyclopedia/migration/

[3] https://link.springer.com/article/10.1186/s40665-015-0013-9

[4] https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/j.1365-2486.2009.01865.x

[5] https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0197076

[6] https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0308521X18302555

[7] fonte da figura 1: https://www.britannica.com/science/migration-animal/Fish

[8] Fonte da imagem em destaque: https://cdn.britannica.com/00/92800-050-3D2DDCC1/Herds-zebras-wildebeests-river-migration.jpg

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