Dia 22 de agosto é o Dia Nacional do Folclore aqui no Brasil. O folclore diz respeito aos conhecimentos populares, ao saber tradicional do povo. São contos, poemas, lendas, provérbios, adivinhas e jogos que ficam enraizados na mente das pessoas, por vezes até moldando seus comportamentos e atitudes. O folclore não é restrito ao Brasil, mas aqui em terras brasileiras os personagens do folclore são muitos: caipora, saci-pererê, boitatá, Iara, o boto, etc. Pensando nisso, o texto de hoje discute como pode ter surgido o mito de um dos personagens mais conhecidos do folclore aqui no país: o lobisomem.

O lobisomem, licantropo ou literalmente “homem-lobo” é uma criatura mística peluda, uma mistura de homem com lobo, com poderes de alta velocidade, grande ferocidade e sentidos apurados, e que só é detido com o uso de artefatos de prata. Diz a lenda que um homem se transforma em lobo em noite de lua cheia, quando sai à caça, e volta à forma humana ao amanhecer. Essa é, na verdade, apenas uma das versões da história. Desde a Grécia Antiga existe a crença do licantropo, que assim se tornava ao comer a carne de um lobo; nas diferentes regiões do Brasil, inclusive, existem diversas versões da lenda do lobisomem.

Mas além do imaginário popular, há relatos ‘científicos’ antigos de pesquisadores que diziam ter observado lobisomens andando por aí em noite de lua cheia. E por que esses relatos ocorriam? Sabemos que tais transformações são impossíveis do ponto de vista biológico, mas o fato é que várias lendas surgiam do desconhecimento de condições médicas físicas e mentais humanas. Sabe-se que muitas lendas foram criadas quando os europeus chegaram ao Novo Mundo e relataram plantas, animais e até seres humanos incomuns como monstros, criando explicações místicas e chamativas.

Uma das razões para o surgimento da lenda do lobisomem, por exemplo, é a licantropia. Essa é uma condição psicológica de transtorno de identidade na qual um indivíduo acredita ser ou acredita ter sido transformado em um animal qualquer, até mesmo um lobo, demonstrando comportamento agressivo. Essa condição é comum em pacientes que sofrem de esquizofrenia, por exemplo.

Sensibilidade à luz, alucinações e, em casos extremos, deformações, podem explicar algumas das características de um lobisomem, mas também são sintomas da porfíria, uma doença relacionada à deficiência nas enzimas responsáveis pela produção de heme, um componente essencial da hemoglobina do sangue.

Já a hipertricose é uma síndrome rara na qual há produção em excesso de pêlos em determinadas partes do corpo, como no rosto e nos braços (Imagem 1).

Imagem 1: homem com hipertricose no rosto. Fonte da imagem: http://saude.ig.com.br/2018-02-07/mutacao-de-hormonios-hipertricose.html

Existem várias condições médicas que podem ter contribuído para a criação do mito do lobisomem, principalmente numa época em que se buscava explicação para fatos pouco compreendidos em criaturas místicas e sobrenaturais, como vampiros e bruxas, que eram comuns no imaginário popular. Apesar destas doenças serem tratáveis, as pessoas acometidas muitas vezes vivem reclusas, depressivas e com medo, precisando de tratamento psicológico. Assim, apesar de muitas vezes os filmes de lobisomem retratarem um lado “romântico” do personagem, as doenças são realmente sérias e merecem atenção.

Até a próxima!

Por Nathália de Moraes

nathalia.esalq.bio@gmail.com

Referências

[1] Delbem, D.C. (2007). Folclore, identidade e cultura. Revista UNAR, Araras, v. 1, n. 1, pg. 19-25. Acessado de http://revistaunar.com.br/cientifica/documentos/vol1_n1_2007/5_folclore_identidade_cultura.pdf em junho de 2018.

[2] Folha de São Paulo. Caderno Ciência. (2011). Lobisomem de 1662 tinha nome científico. Acessado de http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2201201101.htm em junho de 2018.

[3] Wikipedia. Licantropia. Acessado de https://pt.wikipedia.org/wiki/Licantropia em junho de 2018.

[4] Souza, D. (sem data). Porfiria: a realidade por trás do mito. Acessado de http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1384&sid=8  em junho de 2018.

[5] Wikipedia. Hipertricose. Acessado de https://pt.wikipedia.org/wiki/Hipertricose em junho de 2018.

[6] Imagem em destaque:  Youtube

4 Replies to “A ciência por trás do mito do lobisomem”

  1. Interessante esse artigo.

    Pode ser que não exista, mas que algumas características como a hipertricose talvez tenha facilitado a imaginação dos antigos.

    Obrigado por compartilhar!

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