Olá! 

Meu nome é Patricia Sujii e esse é o “Quem nunca? – histórias que a gente vive, mas os artigos não contam”, uma série de crônicas do Ciência Informativa.

O Ciência Informativa foi criado para ser uma conexão entre o que acontece dentro e fora dos muros das universidades e dos centros de pesquisa. Queremos unir as curiosidades das pessoas com as descobertas incríveis dos cientistas. Também queremos mostrar como a ciência está no nosso cotidiano, crescendo e se metendo nas nossas rotinas, mesmo que às vezes a gente não perceba. 

Por isso, agora, além dos nossos textos do blog, também queremos mostrar as pessoas que fazem a pesquisa ou que são afetadas por ela. Alguns dos nossos relatos vão mostrar os bastidores da pesquisa, o dia a dia de um laboratório, aventura de dias de campo,… mas também vamos ter alegrias, frustrações e inseguranças de quem faz pesquisa. E vamos além, também queremos saber de você, que não é cientista, mas que viveu alguma emoção por causa da ciência. Queremos ouvir causos em que a ciência é pano de fundo pra alguma experiência humana. 

Quem nunca chegou mais longe graças a ajuda de uma rede de apoio? 

Vamos fechar este mês das mães no Ciência Informativa com o relato da Dra. Alice Nagata. Ela é pesquisadora e mãe (não necessariamente nessa ordem, como vocês vão ouvir ou ler no relato). E ela também é minha tia e me inspira a ser uma pessoa melhor sempre, vocês já vão saber o porquê! 

Ouça todos os episódios: https://anchor.fm/ciencia-informativa

A carreira de pesquisadora e a de mãe

Olá, sou Alice Nagata, pesquisadora da Embrapa Hortaliças, com 25 anos de casa. Hoje, estou aqui para falar sobre a maternidade e a carreira de pesquisadora. Esse é um tema bem complexo e a maioria dos homens não sente o quão o Brasil é um país machista e quão uma mulher profissional tem que se esforçar para poder trabalhar e ser reconhecida. Então, estou aqui para contar um pouco da minha experiência. 

Tenho 3 filhos, o mais velho tem 22 e a mais nova 16 anos. Já estão bem crescidinhos, mas ainda dão um pouco de trabalho. Sou agrônoma e fiz o doutorado em Fitopatologia, quer dizer, eu trabalho com doenças de plantas. Conheci o meu marido durante o mestrado, no Japão, e ele resolveu vir ao Brasil, de onde ele não saiu até hoje. Terminei o doutorado quando eu tinha 33 anos. A essa altura, eu já estava casada. Sempre fui muito dedicada ao trabalho, quase uma “workaholic”. E no mesmo mês que defendi a tese de doutorado, fui contratada pela Embrapa como pesquisadora. E foi assim que comecei a minha carreira e sempre busquei ser uma boa empregada. 

Como era agrônoma, sempre fui cercada por homens; isso era bem natural e nunca senti que fui discriminada por ser mulher e eu sempre me esforcei para não ser discriminada por ser mulher. O meu primeiro filho nasceu quando eu tinha 35 anos, foi uma gravidez totalmente planejada. Eu já tinha concluído o doutorado, eu tava empregada, já estava na hora de ter um filho e ele foi muito desejado. Apesar do vício pelo trabalho, a gravidez mudou totalmente o meu modo de pensar. Sentir o menino na barriga era a melhor coisa do mundo, eu estava convencida que tinha vindo ao mundo para ter filhos, era muita a felicidade. A gravidez trouxe enjoos, mas foi bem tranquila. O mais velho nasceu e aí eu senti toda a insegurança de uma mãe de primeira viagem. Não sabia o que fazer com o menino, ele chorava o tempo inteiro e trocava o dia pela noite. Estava totalmente exausta e até pensei em parar de trabalhar. Mas essa fase passou e depois ficou mais fácil de levar a vida de mãe e pesquisadora. 

Tive o apoio da minha mãe e do meu pai. Eles me ajudaram muito a cuidar de todos os meus filhos. Meu pai cuidou mais dos netos do que dos filhos, era o que minha mãe falava. Vivia comprando din-din para eles, e a minha mãe estava SEMPRE presente. Isso me ajudou demais. Depois foram mais duas filhas em um momento de deslanchar uma carreira, que consistia em definir temas de trabalho, produzir resultados e tentar ser útil para a sociedade. O treino leva à perfeição, na vez da caçula, logo depois do parto, já estava trabalhando em casa, conseguindo conciliar as tarefas de mãe e de pesquisadora. Isso tudo parece fácil, mas não foi. 

Eu sentia uma pressão de que a mãe tem que ser mãe, tem que ser dedicada e presente; tem que ser esposa, tem que ser amorosa e atenciosa com o marido; e ainda tem que ser trabalhadora. Tem que trabalhar, ser profissional. Veja bem, ser uma boa mãe e uma pesquisadora razoável, no mundo, é aceitável, mas uma mãe ruim e BOA pesquisadora, isso não. Isso não pode acontecer! Se quer ser uma boa profissional, precisa ser antes uma boa mãe. Essa é uma cobrança da sociedade! Nós sentimos esse peso. 

Deixei de viajar a trabalho, quer dizer, visitar lavouras e participar de congressos. Esse foi um preço que tive que pagar e não me arrependo em nada. Também acho que isso não prejudicou a minha carreira. 

Ter uma boa equipe em casa e no trabalho. Eu acho que esse é o grande segredo! O marido, os pais, os filhos mais velhos, os colegas e estudantes, todos foram e são tão importantes! A carga é pesada, mas dá muito prazer! 

Será que sou boa mãe? Tomara que eu seja, mas é duro ouvir dos filhos que fui mãe ausente, mesmo que seja de brincadeira. Será que sou boa pesquisadora? Tomara que eu seja! Como eu disse, o fardo é pesado e é preciso aliviar a carga da mãe. Tem que compartilhar com os outros as tarefas e responsabilidades. Não pode ficar tudo nas costas da mãe. É muito importante encontrar um bom marido e um bom pai. Eu tive muita sorte com o meu marido, cheguei até aqui graças a ele. E ele também é doutor em Fitopatologia e professor. Às vezes fico me perguntando: se ele não entendesse o que é o trabalho de pesquisador, será que teria sido diferente? O meu recado nesta mensagem aqui é que ser mãe para mim está sendo a melhor coisa do mundo e que tudo que fazemos, devemos fazer com dedicação e amor, seja como mãe, seja como pesquisadora. Como diz a minha mãe: “aqui se faz, aqui se paga”, quer dizer, colhemos o que plantamos. Então tudo o que nós temos é consequência.

E ser mãe e pesquisadora pra mim, leva à felicidade em dobro! Queria agradecer a atenção de todos! Obrigada!

Dra. Alice Nagata (agachada) e seus orientados. 

Quem nunca chegou mais longe graças a ajuda de uma rede de apoio?

Essa é a segunda contribuição da dra. Alice pro nosso blog. Ela já escreveu um texto que explica que plantas também pegam viroses. Leia aqui.

Esse foi nosso terceiro episódio do “Quem nunca? – histórias que a gente vive, mas os artigos não contam”. Gostou da proposta? Segue a gente no Spotify, assina no apple podcasts ou se inscreva no Google podcast pra não perder nenhum episódio. Aproveita e compartilha com aquela super mãe e profissional que você admira!

Se você quer contar seu causo aqui ou quer indicar alguém que tenha um causo pra contar, entra em contato com a gente por e-mail (cienciainformativa@gmail.com) ou pelas nossas redes sociais.

Obrigada por nos ouvir ou nos ler e até a próxima!

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